A OUTRA

CAPÍTULO 31

UMA NOVELA DE TAÍS GRIMALDI



CENA 1 — CLÍNICA SÃO DAMIÃO — CORREDOR / QUARTO DE STELLA — NOITE

O corredor da clínica está silencioso, iluminado por lâmpadas frias que criam sombras longas nas paredes. O relógio marca 03h17. A noite parece suspensa no tempo.

A porta do quarto de Stella continua fechada. Por trás dela, o som abafado de uma respiração acelerada.

INTERIOR — QUARTO DE STELLA

Selena permanece imóvel diante da cama, ainda em choque. O rosto dela está molhado de lágrimas, mas os olhos… os olhos agora são outra coisa. Não são mais de uma mulher apaixonada. São de alguém que acabou de perder o chão — e encontrou um novo propósito sombrio.

Stella, assustada, tenta se afastar, mas está fraca demais. A respiração dela é curta, irregular.

STELLA (voz trêmula) Por favor… não chega perto de mim…

Selena dá um passo para trás, mas não por compaixão — por cálculo. Ela observa Stella como se estivesse diante de um enigma vivo.

SELENA (baixa, fria, quase científica) Você não lembra de mim. Você não lembra de nada.

Stella fecha os olhos, lágrimas escorrendo.

STELLA Eu… eu não sei quem você é… Eu não sei onde estou…

Selena respira fundo, tentando controlar o turbilhão dentro dela. A voz sai baixa, mas firme — perigosa.

SELENA Alguém fez isso com você. Alguém apagou você de mim.

Ela se aproxima da máquina de monitoramento e observa os números, como se pudesse decifrar algo ali.

SELENA (para si mesma) Isso não é natural. Isso não é acidente. Isso é… intervenção.

Stella abre os olhos, confusa, vulnerável.

STELLA (interrompendo, fraca) Por favor… me ajuda…

Selena a encara. Por um instante, o amor antigo tenta emergir. Mas é engolido pela obsessão.

SELENA Eu vou te ajudar. (pausa) Mas não agora.

Ela caminha até a porta, destranca com cuidado, e antes de sair, lança um último olhar para Stella — um olhar que mistura devoção, dor e uma promessa silenciosa de vingança.

SELENA (baixa, sombria) Eu volto. E quando eu voltar… nada vai te separar de mim.

Ela sai.

CORREDOR — CONTÍNUO

Selena fecha a porta atrás de si e caminha pelo corredor com passos firmes, decididos. A câmera acompanha de costas, enquanto a música sobe — tensa, pulsante, como um coração prestes a explodir.

Ela passa por uma enfermeira verdadeira, que a cumprimenta sem desconfiar.

Selena não responde. Ela está em outro estado mental.

A câmera sobe lentamente enquanto ela se afasta, desaparecendo na escuridão do corredor.

CORTE PARA:

CENA 2 — COBERTURA DE LAURINHA — SALA DE ESTAR — NOITE

A sala está em meia‑luz. Laurinha segura as mãos de Paula Lee, que está devastada, os olhos inchados, a respiração curta. Há uma xícara de chá intocada sobre a mesa.

LAURINHA (baixa, carinhosa) Você não precisa ser forte agora. Chora, Paula. Chora tudo.

Paula tenta, mas o choro não sai. É como se estivesse petrificada pela dor.

De repente — A CAMPANHA TOCA.

Laurinha estranha.

LAURINHA A essa hora…?

Ela vai até a porta. Abre.

Na entrada, impecável, vestida de preto, postura de quem governa um estado e uma sala ao mesmo tempo:

AMANDA LEE. Governadora de São Paulo. Irmã mais velha. E um furacão prestes a explodir.

Laurinha sente o clima e abre passagem.

LAURINHA Eu… vou deixar vocês a sós.

Ela sai discretamente.

Amanda entra sem pedir licença. Fecha a porta. Observa Paula por alguns segundos — não com pena, mas com cálculo.

AMANDA (franca, dura) Eu vim direto do aeroporto. E não vou rodear, Paula. O Arthur morreu porque estava mexendo em coisa que não devia.

Paula levanta o rosto, chocada.

PAULA LEE Como é que é?

Amanda se aproxima, baixa a voz, mas não suaviza o tom.

AMANDA Ele estava cutucando a morte do Vinícius. E você sabe muito bem que tem gente que prefere manter esse assunto enterrado.

Paula se levanta, trêmula.

PAULA LEE Você está insinuando o quê? Que o meu marido foi assassinado por causa do meu irmão?

Amanda suspira, impaciente.

AMANDA Eu não estou insinuando nada. Estou dizendo. E se você continuar nessa obsessão… (pausa, fria) …vai acabar na vala igual ele.

Paula encara a irmã, ferida e furiosa.

PAULA LEE Então você vai me contar. Agora. Tudo. O que aconteceu naquela noite.

Amanda hesita. Mas Paula dá um passo à frente, firme.

PAULA LEE (baixa, cortante) Eu perdi meu marido hoje. Não me faça perder a paciência também.

Amanda respira fundo. Senta. Cruza as pernas. E começa.

INSERT — FLASHBACK — QUADRA DE TÊNIS — NOITE

SONOPLASTIA: batidas secas, respiração, tensão.

A quadra está iluminada por refletores. VINÍCIUS, jovem, bonito, risonho, joga tênis com dois amigos. Eles riem, conversam, brincam.

Ao longe, Cibeli observa, sentada na arquibancada, mexendo no celular.

A noite parece normal.

Até que duas figuras encapuzadas entram pelo portão lateral.

Amanda narra em OFF, fria, objetiva, como quem já contou essa história para si mesma mil vezes.

AMANDA (V.O.) Eles chegaram sem fazer barulho. Sem aviso. Sem pressa.

Os bandidos caminham até a grade. Um deles ergue a arma.

AMANDA (V.O.) Vinícius nem viu. Ninguém viu.

DOIS TIROS. Secos. Diretos. A queima‑roupa.

Vinícius cai. Os amigos gritam. Cibeli se levanta, horrorizada, a mão na boca.

Os bandidos fogem como sombras.

AMANDA (V.O.) E foi isso. Simples. Rápido. Cirúrgico.

VOLTA À CENA — COBERTURA DE LAURINHA

Paula está imóvel. Pálida. Respiração presa.

Amanda se levanta, ajeita o blazer, como quem encerra uma reunião.

AMANDA Agora você sabe tudo. E já pode ficar calada. E sossegada.

Paula não responde. Os olhos dela brilham — não de lágrimas, mas de algo mais perigoso.

Amanda percebe. E sorri, satisfeita com o impacto.

AMANDA (baixa, firme) Não mexe mais nisso, Paula. Ou você vai ser a próxima.

Ela pega a bolsa e caminha até a porta.

Paula permanece parada, olhando para o nada — mas dentro dela, algo se acende. Algo que Amanda não percebe. Algo que ninguém vai conseguir apagar.

A câmera fecha no rosto de Paula: dor, raiva, determinação.

CENA 3 — PALÁCIO DAS LARANJEIRAS — HALL DE ENTRADA — NOITE

As portas altas do Palácio se abrem. Marisa entra, apoiada por Mário, ainda fragilizada pela internação. O ambiente é imponente, mas ela parece menor do que de costume — vulnerável, assustada, tentando se recompor.

O som dos passos ecoa pelo mármore.

No topo da escadaria, Márcia — interpretando Stella — surge com um sorriso aberto, caloroso demais para ser natural.

MÁRCIA (como “Stella”) Marisa… minha querida… você voltou.

Ela desce as escadas com pressa ensaiada, braços abertos. Marisa hesita, mas se deixa abraçar.

MARISA (baixa, emocionada) Stella… eu… eu senti tanto a sua falta.

Márcia aperta o abraço, mas seus olhos passam rapidamente por Mário, calculando, avaliando.

MÁRCIA O importante é que você está aqui agora. Em casa.

Do alto da escada, Consuelo observa a cena com o olhar estreito, desconfiado. Ao lado dela, Eriberto, tenso, braços cruzados.

Eles descem lentamente.

CONSUEL0 (olhar fixo em Márcia) Você parece… muito animada, Stella.

Márcia sorri, mas o sorriso não chega aos olhos.

MÁRCIA É claro que estou. Minha irmã voltou. Isso é motivo de alegria, não é?

Consuelo não responde. Apenas observa — como uma águia que fareja algo errado.

Eriberto se aproxima de Marisa.

ERIBERTO Como você está? (olhar preocupado) A clínica disse que ainda precisava de repouso.

Marisa tenta sorrir.

MARISA Eu precisava voltar. (pausa) Precisava ver vocês.

Márcia segura a mão dela com força — força demais.

MÁRCIA E vai ficar bem. Eu vou cuidar de tudo.

Consuelo percebe o gesto. E percebe a força. E percebe o excesso.

O olhar dela endurece.

CONSUEL0 (baixa, cortante) Stella… você está diferente.

Márcia vira o rosto devagar, com um sorriso ensaiado.

MÁRCIA Todos nós mudamos, Consuelo. Principalmente depois de… tudo.

Consuelo não se convence. Eriberto também não.

Mário, que observava em silêncio, dá um passo à frente.

MÁRIO (educado, mas firme) Marisa precisa descansar. Foi um dia longo.

Márcia se adianta.

MÁRCIA Claro. Eu mesma vou levá-la aos aposentos.

Ela segura Marisa pelo braço e começa a conduzi-la. Marisa olha para trás, para Mário, como se pedisse segurança.

Consuelo observa a cena com olhos de aço.

CONSUEL0 (para Eriberto, em voz baixa) Essa mulher não é a Stella que eu conheço.

Eriberto não responde. Mas o silêncio dele diz tudo.

A câmera acompanha Márcia levando Marisa pelo corredor — um gesto que deveria ser acolhedor, mas parece quase uma captura.

A música sobe, tensa, elegante, cheia de presságios.

CENA 5 — RIO DE JANEIRO — AMANHECER

SONOPLASTIA: “Jesus Loves Me” — Whitney Houston (a Capella) (suave, espiritual, quase etérea; a cidade desperta em silêncio)

O sol começa a nascer por trás dos morros. A luz dourada invade lentamente o Rio, iluminando prédios, ruas vazias, a orla ainda adormecida.

A câmera passeia pela cidade:

— A praia de Copacabana com ondas calmas. — O Cristo Redentor envolto em névoa. — A Catedral Metropolitana recortando o céu. — O trânsito começando a ganhar vida.

A música ecoa como uma prece. Como se o Rio inteiro estivesse respirando fundo antes de um dia pesado.

CORTA PARA:

O exterior da Catedral de São Sebastião. Pessoas começam a chegar para o velório de Arthur. Roupas escuras. Passos lentos. Olhares carregados.

A música termina num sussurro.

CORTE.

CENA 6 — CATEDRAL DE SÃO SEBASTIÃO — MANHÃ

O caixão de Arthur é carregado para fora da igreja por quatro homens. O clima é de luto profundo. O som dos passos ecoa no pátio da Catedral.

Paula Lee está ao lado de Evelyn e Giuseppe, completamente devastada, mas tentando manter a postura. O rosto dela está rígido, como se qualquer movimento pudesse fazê-la desabar.

A atleta Rebecca Andrade se aproxima com delicadeza, emocionada.

REBECCA ANDRADE (baixa, sincera) Paula… meus sentimentos. O Arthur era um grande empresário no esporte. Fez muito por muita gente. Ele vai fazer falta.

Paula tenta sorrir, mas não consegue. Apenas segura a mão de Rebecca em agradecimento.

Rebecca se afasta.

De repente, surge Carolina, descabelada, nervosa, claramente fora de si.

Ela vai direto até Paula, mas ao ver Laurinha ali perto, muda o alvo.

CAROLINA (alta, descontrolada) O Roberto saiu de casa! E a culpa é sua, Laurinha! Do seu filho! Ele… ele… converteu o Roberto! Transformou ele em… em… gay!

Um burburinho se espalha. Evelyn arregala os olhos. Giuseppe suspira, exausto. Paula fecha os olhos, como se não pudesse lidar com mais nada.

Laurinha respira fundo. E responde com a calma de quem sabe exatamente o que está fazendo.

LAURINHA (serena, firme) Carolina… ninguém “converte” ninguém. Seu marido saiu de casa porque ele não aguenta mais viver uma mentira. E você sabe disso.

Carolina treme, furiosa.

CAROLINA Mentira?! Você está destruindo a minha família!

LAURINHA (olhar direto, cortante) A sua família já estava destruída. Você só não queria enxergar.

Carolina tenta avançar, mas Evelyn e Giuseppe a seguram.

EVELYN (baixa, firme) Chega, Carolina. Aqui não é lugar pra isso.

Carolina chora, descontrolada, e é retirada por uma amiga.

O silêncio volta. Pesado. Constrangedor.

Laurinha respira fundo e volta para perto de Paula, que está imóvel, olhando para o caixão sendo colocado no carro funerário.

EVELYN (abraçando Paula) Força, meu amor. A gente está aqui.

GIUSEPPE (baixa) Você não está sozinha.

Paula finalmente desaba, silenciosamente, lágrimas escorrendo sem controle.

A câmera se afasta.

No alto da escadaria da Catedral, Amanda Lee observa tudo. Impecável. Fria. Distante.

Ela não se aproxima da irmã. Não diz uma palavra. Apenas observa — como uma juíza silenciosa.

A câmera fecha no rosto de Paula, devastada.

CORTE PARA:

CENA 7 — APARTAMENTO DE ARTHUR — DIA

O apartamento está quase vazio agora. A perícia já foi embora. A fita amarela ainda corta a sala como uma cicatriz.

A luz fria da cozinha invade o ambiente. Yonã está sozinha, sentada no chão, cercada por caixas, pastas, envelopes, documentos espalhados como peças de um quebra‑cabeça macabro.

Ela está exausta, mas não para. Os olhos vermelhos, o cabelo preso às pressas, a expressão dura.

Ela abre uma gaveta do escritório. Lá dentro, uma pasta preta, sem etiqueta.

Yonã a puxa devagar. Algo nela pesa — literalmente e simbolicamente.

Ela abre.

Dentro, dezenas de notícias impressas sobre a morte de Cibeli:

Há também anotações à mão de Arthur:

— “Não foi acidente.” — “Cibeli viu algo.” — “Vinícius → ligação direta.” — “Alguém está apagando rastros.”

Yonã respira fundo, o coração acelerado.

Ela pega uma folha solta. É um recorte com a foto de Cibeli sorrindo.

Atrás, escrito por Arthur:

“Se eu morrer, não foi acaso.”

Yonã fecha os olhos por um instante. A dor bate — mas ela transforma em foco.

Ela espalha tudo no chão, organizando como um mapa mental. As peças começam a se encaixar.

YONà(baixa, para si mesma) Ele estava perto demais. Perto demais da verdade.

Ela pega outra anotação:

“Alguém do alto escalão envolvido.”

Yonã se levanta, encara o apartamento vazio, como se Arthur ainda estivesse ali.

YONà(baixa, firme, sombria) Isso aqui… (pausa) …é queima de arquivo.

A câmera fecha no rosto dela — duro, decidido, implacável.

Ela guarda a pasta no próprio casaco.

YONà(para si mesma) E eu vou descobrir quem mandou apagar você, Arthur. E por quê.

Ela apaga a luz. Sai do apartamento. A porta se fecha com um estalo seco.

CORTA PARA:

 

CENA 8 — CLÍNICA SÃO DAMIÃO — QUARTO DE STELLA — DIA

A luz azulada das máquinas pulsa no quarto silencioso. Stella dorme — ou parece dormir. O rosto pálido, a respiração irregular, o corpo imóvel.

De repente, um espasmo.

A câmera se aproxima lentamente.

A respiração dela acelera. O corpo se contorce levemente. O suor começa a surgir na testa.

Ela está sonhando.

FLASHES — SONHO / MEMÓRIA — ACIDENTE DO JATO

FLASH 1 O jato em queda. Luzes piscando. Alarmes ensurdecedores.

FLASH 2 Stella gritando, agarrada ao encosto da poltrona. O mundo girando pela janela.

FLASH 3 Márcia surgindo na cabine, o rosto iluminado por luz vermelha. Olhar fixo. Frio. Implacável.

FLASH 4 O impacto. O clarão. O fogo. O mar engolindo tudo.

FLASHES — SONHO / MEMÓRIA — O CONFRONTO NO JATO

FLASH 5 Stella e Márcia frente a frente. A taça de champanhe caindo. O líquido escorrendo como sangue.

FLASH 6 Márcia avançando. Stella recuando. As duas presas num duelo que nunca terminou.

FLASH 7 A frase de Márcia ecoando, distorcida: “Chegou a hora, Stella.”

FLASH FINAL — O MOMENTO DA MORTE

O jato explode. O mar se fecha. Silêncio absoluto.

VOLTA PARA O QUARTO — CLÍNICA — MADRUGADA

Stella acorda com um sobressalto, arfando, como se tivesse emergido debaixo d’água.

Ela está ensopada de suor. Os olhos arregalados. A respiração descontrolada.

Por alguns segundos, ela não sabe onde está.

A câmera gira ao redor dela, criando vertigem.

Ela leva a mão à cabeça — e então, algo muda.

Um foco. Um reconhecimento. Uma consciência que volta como um golpe.

STELLA (baixa, rouca, assustada) Eu… Eu sou…

Ela fecha os olhos, respira fundo, e quando abre — o olhar é outro.

Firme. Lúcido. Assustadoramente claro.

STELLA (agora plena, consciente) Eu sou… Stella.

A máquina apita. O monitor registra o aumento da frequência cardíaca.

Stella olha para a porta. Para o teto. Para as próprias mãos.

Ela lembra. Tudo.

O acidente. Márcia. A queda. A fuga. A morte que não aconteceu.

E o mais importante:

Ela sabe quem ela é.

A câmera fecha no rosto dela — um misto de medo, revelação e uma força que estava adormecida.

STELLA (um sussurro, promessa e ameaça ao mesmo tempo) Eu voltei.

A música sobe — tensa, elegante, cheia de destino.

CORTE PARA:

 

FIM

 

 

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