A OUTRA
CAPÍTULO 32
UMA NOVELA DE TAÍS GRIMALDI
CENA 1 — CLÍNICA SÃO DAMIÃO — QUARTO DE STELLA — DIA
O monitor cardíaco continua apitando rápido, marcando o retorno da consciência como um alarme silencioso do destino. Stella permanece sentada na cama, ofegante, o suor escorrendo pela testa. A respiração começa a se estabilizar, mas o olhar… o olhar está diferente. Vivo. Afiado. Presente.
Ela passa a mão pelo rosto, tentando organizar os pensamentos que voltam como lâminas.
STELLA (baixa, para si, ainda em choque) Eu… sobrevivi.
Ela olha ao redor, analisando o quarto como se fosse a primeira vez. E é. Pela primeira vez, ela está ali como ela mesma.
A porta do quarto se abre de repente.
Uma ENFERMEIRA entra apressada, atraída pelo aumento da frequência cardíaca no monitor.
ENFERMEIRA Meu Deus… você acordou! (pausa, surpresa) Mas… você está… desperta mesmo?
Stella a encara com uma intensidade que a enfermeira não esperava.
STELLA (voz firme, ainda rouca) Há quanto tempo eu estou aqui?
A enfermeira hesita. Olha para o prontuário. Olha para Stella. Algo não se encaixa.
ENFERMEIRA Você… estava em coma. (pausa) E acordou ontem… mas… não assim. Você não falava. Não reagia. Parecia… outra pessoa.
Stella fecha os olhos por um instante. Respira fundo. Quando abre, o olhar é de pura determinação.
STELLA Eu preciso falar com o médico. Agora.
A enfermeira assente, ainda assustada, e sai rapidamente.
Stella observa a porta se fechar.
E então, pela primeira vez desde que acordou, ela sorri. Um sorriso pequeno, tenso, mas cheio de significado.
STELLA (baixa, sombria) Márcia… Você achou que tinha vencido.
Ela toca o próprio rosto, como se confirmasse a própria existência.
STELLA Mas eu estou viva. E eu vou voltar pra casa.
A câmera se aproxima lentamente, captando o brilho perigoso nos olhos dela.
STELLA (um sussurro firme, promessa absoluta) E vou tirar cada impostora do meu caminho.
O monitor apita mais rápido. A tensão cresce.
A porta se abre novamente — desta vez, com passos apressados no corredor.
Stella ergue o queixo, pronta.
A música sobe — elegante, tensa, cheia de destino.
CORTA PARA:
CENA 2 — CLÍNICA SÃO DAMIÃO — DIA
O corredor da clínica está silencioso, quase solene. A luz branca e fria cria um clima de tensão que parece anunciar algo grave. Giuseppe e Evelyn chegam apressados, ainda com roupas do velório, exaustos emocionalmente.
Uma médica os aguarda na porta da UTI, expressão profissional, mas carregada de urgência.
MÉDICA Senhor Giuseppe… dona Evelyn… obrigada por virem tão rápido.
Os dois se entreolham, aflitos.
GIUSEPPE (voz baixa, tensa) Aconteceu alguma coisa com a Márcia?
A médica respira fundo.
MÉDICA Ela… acordou.
Evelyn leva a mão à boca, surpresa.
EVELYN Meu Deus… ela… ela voltou?
A médica assente.
MÉDICA Sim. Mas… não como esperávamos. (pausa) Ela está lúcida. Muito lúcida. E… diferente.
Giuseppe franze o cenho, inquieto.
GIUSEPPE Diferente como?
A médica hesita — o que só aumenta o pânico dos dois.
MÉDICA Ela está… firme. Consciente. E pediu para falar com vocês imediatamente.
Evelyn sente o chão sumir por um instante.
EVELYN (assustada) Mas… ela não lembrava de nada ontem. Nem sabia quem era. Como… como isso é possível?
A médica apenas balança a cabeça.
MÉDICA Não sei explicar. Mas a mudança é radical.
Giuseppe respira fundo, tentando manter a calma, mas a voz falha.
GIUSEPPE Ela… ela sabe quem é?
A médica olha para os dois com cuidado.
MÉDICA Ela disse que sim.
Evelyn aperta o braço de Giuseppe, tomada por um medo que não sabe nomear.
EVELYN (baixa, quase um sussurro) E se… e se não for a Márcia?
Giuseppe fecha os olhos por um instante. A dúvida que ele vinha tentando ignorar finalmente ganha forma.
GIUSEPPE (duro, preocupado) Seja quem for… (pausa) …ela quer falar com a gente.
A médica abre a porta da UTI.
O som das máquinas preenche o corredor.
Giuseppe e Evelyn se entreolham — um olhar de pânico silencioso.
E entram.
CORTA PARA:
CENA 3 — CLÍNICA SÃO DAMIÃO — QUARTO DE STELLA — DIA
A porta se abre devagar. Evelyn e Giuseppe entram com passos hesitantes, como quem pisa em território desconhecido. O quarto está silencioso, iluminado pela luz suave da manhã.
Stella — agora plenamente consciente, mas fingindo fragilidade — está sentada na cama, coberta até a cintura, postura impecável apesar do suposto coma recente.
Ela ergue o olhar e força um sorriso fraco.
STELLA (como “Márcia”) (voz baixa, trêmula, ensaiada) Vocês… vieram.
Evelyn corre até ela, emocionada, mas algo no olhar denuncia inquietação.
EVELYN Meu amor… graças a Deus você acordou. (pausa, observando) Como você está se sentindo?
Stella segura a mão dela com delicadeza calculada.
STELLA Confusa… muito confusa. (pausa dramática) As memórias… estão turvas. Eu lembro de… luzes… gritos… e depois… nada.
Giuseppe se aproxima devagar, estudando cada gesto, cada microexpressão.
GIUSEPPE Você lembra do acidente?
Stella baixa os olhos, como quem tenta acessar algo distante.
STELLA (voz suave, perfeita) Só… pedaços. Como se fosse um sonho ruim. Eu… eu não sei o que é real.
Evelyn aperta a mão dela, emocionada.
EVELYN Isso é normal, meu bem. Você passou por um trauma enorme.
Stella ergue o olhar — e por um segundo, um brilho frio, consciente, escapa. Giuseppe percebe. Evelyn também.
Mas Stella rapidamente volta ao papel.
STELLA Eu só quero… voltar pra casa. Ficar com vocês. Recomeçar.
Giuseppe troca um olhar rápido com Evelyn — um olhar carregado de dúvida.
GIUSEPPE (baixo, desconfiado) Márcia… você tem certeza que não lembra de mais nada?
Stella sustenta o olhar dele com perfeição — firme, mas vulnerável.
STELLA Se eu lembrasse… vocês seriam os primeiros a saber.
Evelyn sorri, mas o sorriso não chega aos olhos.
EVELYN Claro, meu amor. Claro.
Stella toca o rosto dela com carinho — um gesto que deveria ser natural, mas sai preciso demais, calculado demais.
Giuseppe observa. Cada detalhe. Cada palavra. Cada silêncio.
Ele se aproxima da porta, mas antes de sair, lança um último olhar para Stella.
Um olhar que diz: “Eu sei que você está mentindo.”
Stella retribui com um sorriso doce — doce demais.
Quando eles saem, a porta se fecha devagar.
Stella respira fundo. O sorriso desaparece.
O olhar dela endurece — agora, Stella por completo.
STELLA (baixa, fria) Eles não vão atrapalhar.
A câmera fecha no rosto dela — elegante, perigosa, renascida.
CORTA PARA:
CENA 4 — CLÍNICA SÃO DAMIÃO — QUARTO DE STELLA — MADRUGADA
SONOPLASTIA: “See You Next Wednesday” — Gavin Salkeld (tensa, pulsante, como se o destino estivesse prestes a explodir)
O corredor está vazio. A porta do quarto se abre devagar.
Selena, novamente disfarçada de enfermeira, entra com passos silenciosos. Mas desta vez, ela não encontra a mulher frágil e perdida da noite anterior.
Ela encontra Stella sentada na cama, ereta, olhar afiado, postura de quem voltou ao mundo com sede de guerra.
Selena para na porta, surpresa — e excitada pelo que vê.
SELENA (baixa, provocante) Vejo que alguém acordou… inteira.
Stella sorri de canto, perigosa.
STELLA Eu recuperei tudo. (pausa) Inclusive a minha fome de viver.
Selena se aproxima devagar, como uma predadora reconhecendo outra.
SELENA E vai continuar fingindo ser a sua irmã?
STELLA Até eu estar forte o suficiente pra sair daqui. (pausa, firme) E você vai me ajudar.
Selena ergue o queixo, satisfeita.
SELENA Eu sabia que você ia voltar assim. Com esse veneno doce que eu tanto senti falta.
Stella inclina a cabeça, estudando Selena como quem reencontra um vício antigo.
STELLA E eu senti falta da minha cobra perigosa.
A tensão entre as duas muda de temperatura.
A música tensa desaparece…
E entra:
SONOPLASTIA: “Erotica” — Madonna (instrumental) (sensual, elegante, carregada de desejo e perigo)
Selena se aproxima até ficar a poucos centímetros. O ar entre elas vibra.
SELENA (voz baixa, quente) Você não faz ideia do que eu faria pra tirar você daqui.
Stella toca o rosto dela com a ponta dos dedos — leve, mas firme.
STELLA Então começa agora.
Selena segura a mão dela, trazendo-a para mais perto.
SELENA Eu estava com saudade do seu gosto de poder.
Stella sorri, lenta, provocante.
STELLA E eu estava com saudade da sua devoção.
O clima explode em silêncio.
Selena encosta a testa na dela. As respirações se misturam. As mãos se encontram. Os corpos se aproximam com uma urgência elegante, contida, mas inevitável.
A câmera gira ao redor delas — luz baixa, sombras, pele, respiração.
Nada explícito. Tudo sugerido. Tudo intenso.
A música cresce.
As duas se entregam ao reencontro — animal, sensual, elegante, como duas forças que se reconhecem e se devoram sem perder o controle.
A câmera se afasta devagar, deixando apenas:
— o som abafado da respiração — a luz azulada das máquinas — e a certeza de que Stella e Selena acabaram de selar um pacto perigoso
CORTA PARA:
CENA 5 — PALÁCIO DAS LARANJEIRAS — HALL PRINCIPAL / ESCRITÓRIO DE ERIBERTO — MANHÃ
O Palácio das Laranjeiras está mais silencioso do que o habitual. Há um peso no ar — o tipo de tensão que antecede revelações perigosas. Funcionários caminham apressados, mas evitam fazer barulho, como se qualquer som pudesse desencadear uma explosão.
A porta principal se abre.
CAPITÃO NEVES entra. Postura rígida, olhar atento, expressão de quem veio para algo sério.
Consuelo surge imediatamente, impecável como sempre, mas com o rosto marcado por noites mal dormidas. Ela força um sorriso diplomático.
CONSUEL0 Capitão Neves… obrigada por vir tão rápido.
Neves inclina a cabeça, respeitoso.
CAPITÃO NEVES A senhora pediu urgência. Imaginei que fosse grave.
Consuelo respira fundo, tentando manter o controle.
CONSUEL0 É. (pausa) E está ficando mais grave a cada hora.
Ela faz um gesto para que ele a acompanhe.
Os dois caminham pelo hall em direção ao corredor que leva ao escritório de Eriberto. O som dos passos ecoa pelo mármore.
No topo da escadaria, Márcia — ainda fingindo ser Stella — observa tudo.
Imóvel. Silenciosa. Olhar afiado como uma lâmina.
Ela segue os dois com os olhos, sem piscar.
A câmera fecha no rosto dela: curiosidade, cálculo, perigo.
Consuelo percebe a presença, mas não demonstra. Apenas aperta o passo.
CONSUEL0 (baixa, para Neves) Não diga nada até estarmos no escritório. As paredes aqui… escutam demais.
Neves assente, sério.
Eles chegam à porta do escritório de Eriberto. Consuelo abre.
CONSUEL0 Entre. Ele está esperando.
Neves entra.
Consuelo fecha a porta atrás dele — mas antes de fechar completamente, lança um olhar rápido para o alto da escada.
Márcia continua lá. Imóvel. Observando. Absorvendo cada detalhe.
A porta se fecha.
Márcia sorri — um sorriso pequeno, perigoso, quase imperceptível.
MÁRCIA (pensamento) Alguma coisa está acontecendo… E eu vou descobrir o quê.
A câmera sobe lentamente, captando o rosto dela em close — elegante, frio, calculista.
CORTA PARA:
CENA 6 — PALÁCIO DAS LARANJEIRAS — ESCRITÓRIO DE ERIBERTO — MANHÃ
O escritório de Eriberto está em meia-luz. Cortinas pesadas filtram o sol, criando um ambiente denso, quase conspiratório. Livros de direito, fotos oficiais, diplomas — tudo compõe a imagem de um homem poderoso… e acuado.
Eriberto está de pé, tenso, mãos apoiadas na mesa. Consuelo senta-se no sofá, elegante, postura impecável, expressão de quem já sabe que o mundo está desmoronando, mas não perde a pose.
A porta se abre.
CAPITÃO NEVES entra. Olhar cansado, barba por fazer, o peso de anos de sujeira nas costas.
Ele fecha a porta com cuidado.
CAPITÃO NEVES (voz baixa, direta) Eu não tenho muito tempo. E vocês também não.
Eriberto troca um olhar rápido com Consuelo.
ERIBERTO O que aconteceu?
Neves respira fundo, como quem vai confessar um pecado mortal.
CAPITÃO NEVES O Supremo está no meu encalço. (pausa) E não é mais investigação. É caça.
Consuelo ergue as sobrancelhas, quase divertida.
CONSUEL0 Ah, esses ministros… sempre tão sensíveis quando não são eles que estão mandando.
Neves ignora o comentário.
CAPITÃO NEVES Eu não vou esperar ser preso. Muito menos terminar na Papuda como troféu de moralista.
Eriberto se aproxima, tenso.
ERIBERTO O que você quer?
Neves abre uma pasta grossa, cheia de documentos, planilhas, nomes, contatos — mas nada explícito. Apenas o suficiente para indicar poder.
CAPITÃO NEVES Quero passar tudo pra você. (pausa) Toda a estrutura. Toda a operação paralela. Tudo o que mantém campanha, influência, aliados… funcionando.
Eriberto empalidece.
ERIBERTO Você está louco. Isso é—
CAPITÃO NEVES (interrompe, firme) É o que vai te colocar na presidência. E o que vai me manter vivo.
Consuelo cruza as pernas, satisfeita.
CONSUEL0 Eu sempre disse que Deus ajuda quem se ajuda. E quem tem bons contatos.
Neves continua.
CAPITÃO NEVES Eu preciso desaparecer. E você precisa assumir o controle antes que tudo caia nas mãos erradas.
Eriberto respira fundo, dividido entre ambição e medo.
ERIBERTO E se eu disser não?
Neves sorri — um sorriso cansado, perigoso.
CAPITÃO NEVES Então eu caio. E quando eu cair… (pausa) …eu não caio sozinho.
Silêncio.
Consuelo observa os dois homens como quem assiste a uma ópera trágica.
CONSUEL0 (espirituosa, venenosa) Eriberto, meu amor… Se o destino está batendo à porta, seria deselegante não abrir.
Eriberto encara Neves. A decisão está tomada.
ERIBERTO Deixe tudo aqui. Eu cuido do resto.
Neves entrega a pasta. Os dois se encaram — cúmplices e inimigos ao mesmo tempo.
CAPITÃO NEVES Boa sorte. Você vai precisar.
Ele sai.
A porta se fecha.
Consuelo sorri, satisfeita.
CONSUEL0 Presidência… (pausa) Sempre achei que combinava com você.
Eriberto não sorri. Ele sabe o peso do que acabou de aceitar.
CORTE PARA — SUÍTE DE “STELLA” (MÁRCIA)
A câmera revela Márcia, sentada na cama, com o laptop aberto.
Na tela: as câmeras ocultas do escritório — instaladas por ela semanas antes.
Ela viu tudo. Ouviu tudo. Registrou tudo.
O rosto dela é uma máscara de calma absoluta.
Mas os olhos… Os olhos brilham com algo novo:
poder.
MÁRCIA (baixa, satisfeita) Então é isso que vocês escondem…
Ela fecha o laptop devagar.
MÁRCIA (um sussurro, venenoso) Obrigada, Eriberto. Você acabou de me dar a chave do palácio.
A câmera fecha no sorriso dela — elegante, cruel, calculado.
CORTE PARA:
FIM
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