A OUTRA

CAPÍTULO 38

UMA NOVELA DE TAÍS GRIMALDI


CENA 1 — ESTRADA RIO–TERESÓPOLIS — EXT - NOITE

SONOPLASTIA: chuva fina batendo no para-brisa, motor constante, rádio desligado — silêncio tenso.

A estrada está quase vazia. O carro alugado corta a madrugada como um vulto.

Stella dirige. O rosto está tenso, mas determinado. Ela usa roupas simples, cabelo preso, óculos escuros — irreconhecível.

Selena está no banco do carona, segurando um envelope com:

  • passaportes falsos
  • dinheiro vivo
  • um mapa dobrado
  • e um celular descartável

Selena olha para Stella.

SELENA Você tem certeza disso?

Stella não tira os olhos da estrada.

STELLA Tenho. É agora ou nunca.

Selena respira fundo.

SELENA E a Márcia?

Stella aperta o volante.

STELLA A Márcia tem o que ela quer. Eu tenho o que eu preciso. E cada uma segue seu caminho.

Selena percebe o tom — Stella está tentando se convencer disso.

Selena olha pelo retrovisor.

Um carro preto. Faróis baixos. Distância constante.

SELENA Stella… (pausa) …aquele carro está atrás da gente desde a saída do Rio.

Stella não reage de imediato.

STELLA Tem certeza?

SELENA Tenho. Ele reduz quando a gente reduz. Acelera quando a gente acelera.

Stella respira fundo.

STELLA Pode ser coincidência.

Selena vira o rosto para ela.

SELENA Você sabe que não é.

Stella aperta o volante com força.

STELLA A Márcia disse que ninguém sabia do nosso plano.

Selena olha para ela com cuidado.

SELENA E você acredita?

Stella não responde.

O silêncio diz tudo.

O carro preto muda de faixa. Se aproxima. Devagar. Como um predador.

Selena engole seco.

SELENA Stella… ele está vindo.

Stella acelera.

O carro preto acelera também.

STELLA Droga.

Stella faz uma curva brusca para uma estrada secundária.

O carro preto hesita por um segundo… …e entra atrás delas.

Selena fecha os olhos por um instante.

SELENA Não é coincidência.

Stella respira fundo, tentando manter o controle.

STELLA Então alguém falou demais.

Selena vira-se para ela.

SELENA Ou alguém quer você morta.

Stella olha pelo retrovisor.

O carro preto está cada vez mais perto.

STELLA Ou pior. (pausa) Quer me levar de volta.

O carro preto liga os faróis altos. A estrada fica branca, ofuscante.

Selena cobre os olhos.

SELENA Stella, faz alguma coisa!

Stella respira fundo, firme.

STELLA Segura.

Ela puxa o volante para a direita — o carro derrapa na pista molhada, quase bate no guard rail, mas se mantém.

O carro preto derrapa também, mas não perde o controle.

Ele continua vindo.

Selena olha para o retrovisor e sussurra:

SELENA Stella… (pausa, horrorizada) …eu reconheço aquele carro.

Stella vira o rosto por um segundo.

STELLA De onde?

Selena engole seco.

SELENA Daquela noite no Copacabana Palace. Ele estava lá. No estacionamento. Com homens armados.

Stella sente o sangue gelar.

STELLA Milícia.

O carro preto se aproxima ainda mais.

Selena segura o braço de Stella.

SELENA Eles não estão seguindo a gente. Eles estão caçando.

Stella acelera ao máximo.

A câmera fecha no retrovisor:

os faróis do carro preto ocupam toda a tela.

CORTA PARA:

CENA 2 — COPACABANA PALACE — SUÍTE PRESIDENCIAL — MADRUGADA

SONOPLASTIA: chuva batendo nas janelas, TV ligada no mudo, notificações de celular vibrando sem parar.

A suíte está iluminada apenas por abajures. Márcia, ainda como “Stella”, caminha de um lado para o outro, inquieta. Ela tenta ligar para Stella — sem sucesso.

Márcia (atendendo o próprio eco) Atende, Stella… atende…

Nada.

A porta se abre.

Paula Lee entra, com o celular na mão e expressão grave.

PAULA LEE Temos um problema.

Márcia para imediatamente.

MÁRCIA Qual?

Paula joga o celular na mesa. Na tela, uma notificação de um contato anônimo:

“A rota mudou. Elas não chegaram ao ponto de encontro.”

Márcia empalidece.

MÁRCIA Como assim “não chegaram”? Eu mesma passei o plano pra Stella. Ela devia estar a caminho de Teresópolis.

Paula cruza os braços.

PAULA LEE Pois é. Mas alguém chegou antes delas.

Márcia franze o cenho.

MÁRCIA Quem?

Paula respira fundo.

PAULA LEE A milícia.

Márcia sente o chão sumir.

MÁRCIA Isso não faz sentido. Eles não tinham motivo pra seguir a Stella.

Paula se aproxima, séria.

PAULA LEE Eles têm motivo pra seguir qualquer pessoa que possa derrubar o Eriberto. E Stella… (pausa) …é a única testemunha viva que pode destruir ele de verdade.

Márcia respira fundo, tensa.

MÁRCIA E se eles pegarem ela… (pausa) …acabou pra mim.

Paula olha para ela com firmeza.

PAULA LEE Acabou pra todo mundo. Stella é a peça que mantém esse tabuleiro em pé. Se ela cair… (pausa) …o Eriberto volta com força total.

Márcia aperta o celular com força.

MÁRCIA Eu preciso encontrá-la.

Paula ergue a mão.

PAULA LEE Não. Você não vai atrás dela. Você não pode sumir agora. Você é a “Stella”. Você é a imagem pública. Você é a narrativa.

Márcia hesita.

MÁRCIA E quem vai atrás dela então?

Paula dá um sorriso frio.

PAULA LEE Eu conheço gente que não tem medo da milícia. Gente que deve favores. Gente que não aparece em jornal.

Márcia olha para ela, surpresa.

MÁRCIA Você tem contatos assim?

Paula se aproxima, baixa a voz.

PAULA LEE Eu sou jornalista, Márcia. Eu sei onde a sujeira está. E sei quem limpa.

O celular de Márcia vibra.

Uma mensagem anônima.

Ela lê.

E empalidece.

MÁRCIA (voz baixa) “Ela não está sozinha.” (pausa) “Tem alguém com ela.” (pausa mais longa) “E não é você.”

Paula pega o celular da mão dela.

PAULA LEE Isso significa que Stella tem outro aliado. Alguém que não está no nosso radar.

Márcia fecha os olhos, tensa.

MÁRCIA Ou alguém que quer me derrubar.

Paula olha para ela com intensidade.

PAULA LEE Seja quem for… (pausa) …está jogando contra nós.

Márcia respira fundo.

MÁRCIA Então vamos jogar melhor.

Paula sorri — um sorriso de quem sabe que a guerra começou de verdade.

PAULA LEE Eu já estou mexendo as peças.

A câmera fecha no rosto de Márcia — pela primeira vez, ela parece realmente assustada.

CORTA PARA:

 

CENA 3 — PALÁCIO DAS LARANJEIRAS — GABINETE DO GOVERNADOR — NOITE

SONOPLASTIA: chuva forte, trovões, passos apressados no corredor.

Eriberto está sozinho no gabinete, andando de um lado para o outro. Ele está pálido, suando, tremendo — a invasão de Laurinha o desestabilizou como nada antes.

Ele pega o celular. Liga para o Homem Misterioso — o mesmo da cadeia.

A voz atende na terceira chamada.

HOMEM MISTERIOSO (voz fria) Diga.

ERIBERTO Ela veio aqui. Invadiu o palácio. Ela sabe tudo. Ela tem provas.

Silêncio.

HOMEM MISTERIOSO Nome?

Eriberto respira fundo.

ERIBERTO Laurinha.

Outro silêncio. Mais pesado.

HOMEM MISTERIOSO Entendido.

ERIBERTO (urgente) Ela precisa ser silenciada. Hoje.

O homem responde sem hesitar.

HOMEM MISTERIOSO Já estamos cuidando disso.

A ligação cai.

Eriberto desaba na cadeira, passando a mão no rosto.

Ele sabe que cruzou uma linha sem volta.

CORTA PARA:

 

CENA 4 — CASA DE PAULA LEE — SALA — NOITE

SONOPLASTIA: batidas fortes na porta, chuva intensa.

Paula Lee está revisando documentos quando ouve batidas desesperadas.

Ela abre a porta.

Laurinha está ali. Encharcada. Trêmula. Apavorada.

Paula a puxa para dentro imediatamente.

PAULA LEE Meu Deus… o que aconteceu?

Laurinha mal consegue falar.

LAURINHA Ele vai me matar.

Paula fecha a porta, tranca, e segura Laurinha pelos ombros.

PAULA LEE Então vamos matar a reputação dele antes.

Laurinha a encara — surpresa, aliviada, desesperada.

LAURINHA Você acredita em mim?

Paula sorri — um sorriso duro, de quem já viu o pior.

PAULA LEE Eu sempre acreditei. E agora você tem a mim. E eu tenho a mídia.

Laurinha abre a bolsa e joga na mesa:

  • prints
  • áudios
  • mensagens
  • fotos
  • documentos

Paula arregala os olhos.

PAULA LEE Com isso… (pausa) …a gente derruba ele.

Laurinha respira fundo.

LAURINHA Então vamos derrubar.

As duas se encaram — duas mulheres feridas, mas perigosas.

Uma aliança nasce.

CORTA PARA:

 

CENA 5 — COPACABANA PALACE — SUÍTE PRESIDENCIAL — MADRUGADA

Márcia está sentada, lendo relatórios, quando recebe uma mensagem de um contato interno:

“Eriberto mandou apagar uma mulher. Nome: Laurinha.”

Márcia congela.

Ela sabe o que isso significa.

Ela liga imediatamente para Paula Lee.

Paula atende ofegante.

PAULA LEE Márcia… agora não, eu—

MÁRCIA (urgente) Eriberto mandou matar a Laurinha.

Silêncio.

Paula olha para Laurinha, que está na cozinha.

PAULA LEE Eu já percebi.

MÁRCIA Proteja ela. Eu cuido do resto.

Paula sorri — pela primeira vez, um sorriso de respeito.

PAULA LEE Então estamos do mesmo lado.

CORTA PARA:

 

CENA 6 — CASA DE PAULA LEE — COZINHA — MADRUGADA

Laurinha bebe água na cozinha. A casa está silenciosa.

De repente:

  • as luzes piscam
  • a porta dos fundos se abre devagar
  • um homem encapuzado entra, silencioso

Laurinha vê o reflexo dele no vidro da janela.

Ela grita.

LAURINHA PAULA!

O homem avança.

Paula corre para a cozinha.

O homem foge pela porta dos fundos.

Paula pega algo no chão.

Um distintivo falso da polícia.

Ela olha para Laurinha.

PAULA LEE Isso não é polícia. Isso é milícia. E isso é Eriberto.

Laurinha desaba na cadeira, tremendo.

Paula segura sua mão.

PAULA LEE Agora acabou a brincadeira. A gente vai expor tudo.

CORTA PARA:

 

CENA 7 — ESTRADA RIO–TERESÓPOLIS — CARRO EM MOVIMENTO — MADRUGADA

Stella dirige. Selena olha o celular descartável.

Uma mensagem anônima chega:

“Sua irmã não quer te ajudar. Ela quer te substituir.”

Selena mostra para Stella.

SELENA Isso é verdade?

Stella não responde.

Mas o público vê no rosto dela:

a dúvida entrou. E ela não confia mais em Márcia.

CORTA PARA:

 

CENA 8 — PALÁCIO DAS LARANJEIRAS — GABINETE — MADRUGADA

Eriberto está sozinho.

O celular vibra.

Mensagem sem remetente.

Ele abre.

É um vídeo.

Laurinha aparece, olhando direto para a câmera.

LAURINHA (NO VÍDEO) Eu sei o que você fez com o Vinícius. E eu vou contar.

Eriberto empalidece.

Pela primeira vez…

ele está com medo.

CORTA PARA:

FIM

 

 

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