A OUTRA

CAPÍTULO 37

UMA NOVELA DE TAÍS GRIMALDI


CENA 1 — ENCONTRO SECRETO — SUÍTE DESATIVADA DO COPACABANA PALACE — MADRUGADA

SONOPLASTIA: silêncio abafado, ar-condicionado antigo, o som distante do caos no saguão.

A suíte está escura, iluminada apenas pela luz da cidade entrando pelas cortinas. É um quarto antigo, desativado, usado apenas para reformas — perfeito para um encontro que ninguém pode ver.

A porta se abre.

Márcia entra primeiro, ainda como Stella. Ela fecha a porta devagar, respira fundo, e se vira.

Stella já está lá dentro. Sentada. Calma. Selena ao lado, como uma sombra silenciosa.

As duas se encaram.

É a primeira vez que estão sozinhas desde que o jogo começou.

A tensão é quase física.

STELLA Você demorou.

MÁRCIA Eu precisava despistar a imprensa. E a polícia. E metade do Rio de Janeiro.

Stella sorri — um sorriso pequeno, perigoso.

STELLA Bem-vinda ao meu mundo.

Márcia dá dois passos à frente.

MÁRCIA Vamos direto ao ponto. O escândalo explodiu. Eriberto caiu. Consuelo está em pânico. E você… (pausa) …você quer fugir.

Stella não nega.

STELLA Eu quero viver. E isso não inclui continuar sendo Stella Albuquerque.

Selena observa, atenta.

MÁRCIA E por que eu ajudaria você?

Stella se levanta devagar.

STELLA Porque você quer exatamente o contrário. Você quer ser Stella. Quer o poder. Quer o nome. Quer destruir quem destruiu você.

Márcia não responde — porque é verdade.

STELLA Eu te dou isso. Eu te dou tudo. O nome, a posição, o palco. Você entra. Eu saio.

Márcia respira fundo.

MÁRCIA E o que impede você de voltar depois e me arrancar tudo?

Stella se aproxima — agora as duas estão frente a frente, idênticas, espelhadas, perigosas.

STELLA Eu não volto. Eu não quero esse mundo. Eu quero desaparecer. Com Selena. E nunca mais olhar para trás.

Selena finalmente fala — baixa, firme.

SELENA Ela está dizendo a verdade.

Márcia olha para as duas — e percebe que Stella está quebrada, cansada, exausta de ser quem é.

Mas também percebe outra coisa:

Stella não é fraca. Stella é estratégica. E perigosa.

MÁRCIA E se eu disser não?

Stella sorri — um sorriso que arrepia.

STELLA Então eu conto para o Brasil inteiro que você não é Stella. E você perde tudo antes mesmo de começar.

Silêncio.

Márcia respira fundo. Pensa. Calcula.

E então estende a mão.

MÁRCIA Muito bem. Um pacto. Temporário.

Stella aperta a mão dela.

STELLA Temporário. Até cada uma conseguir o que quer.

As duas se encaram — duas rainhas dividindo o mesmo tabuleiro.

MÁRCIA Mas saiba de uma coisa, Stella. Se você tentar me enganar…

STELLA (interrompe, suave) …eu sei. E se você tentar me trair…

Ela se inclina no ouvido de Márcia.

STELLA …eu desapareço levando sua vida junto.

Márcia sorri — fascinada e assustada.

MÁRCIA Então estamos entendidas.

Selena abre a porta.

Stella sai primeiro.

Márcia fica sozinha por um instante, respirando fundo.

Ela sabe que acabou de entrar no jogo mais perigoso da sua vida.

E que a única aliada dela… é a única pessoa capaz de destruí-la.

CORTA PARA:

CENA 2 — PRESÍDIO BANGU 8 — MADRUGADA

SONOPLASTIA: som de portas de ferro, passos ecoando, silêncio pesado de madrugada.

A cela de Eriberto está escura. Ele está sentado no beliche, a cabeça entre as mãos, o terno amarrotado, o rosto devastado. O homem que já foi governador agora parece um fantasma.

O corredor se ilumina.

Passos firmes. Lentos. Autoritários.

Eriberto levanta a cabeça.

A porta da cela se abre com um estrondo metálico.

Dois agentes entram — não são policiais comuns. São homens grandes, silenciosos, com o tipo de postura que só existe em quem está acostumado a mandar… e a matar.

Entre eles, entra um homem misterioso. Elegante. Camisa social preta. Relógio caro. Nenhuma identificação.

Ele não sorri. Não pisca. Não demonstra emoção.

Eriberto tenta se recompor.

ERIBERTO Quem é você? Eu exijo saber—

O homem ergue a mão. Silêncio imediato.

Ele se aproxima da cama. Fica a poucos centímetros de Eriberto.

HOMEM MISTERIOSO (voz baixa, firme) Você não está em posição de exigir nada.

Eriberto engole seco.

ERIBERTO Eu… eu tenho direitos.

O homem dá um leve sorriso — o tipo de sorriso que dá mais medo do que um grito.

HOMEM MISTERIOSO Direitos? (pausa) Você perdeu todos quando deixou de ser útil.

Eriberto empalidece.

ERIBERTO Eu não fiz nada sozinho. Vocês sabem disso.

O homem se inclina, olhando direto nos olhos dele.

HOMEM MISTERIOSO Sabemos. E é por isso que estou aqui.

Silêncio pesado.

HOMEM MISTERIOSO Você não caiu sozinho. (pausa longa) E não vai sair sozinho.

Eriberto sente o chão sumir.

ERIBERTO O que… o que isso significa?

O homem dá dois passos para trás.

HOMEM MISTERIOSO Significa que você vai colaborar. Vai assumir o que mandarmos. Vai calar sobre o que mandarmos. E vai sobreviver… (pausa) …se fizer exatamente o que mandarmos.

Eriberto tenta se levantar, mas um dos agentes o empurra de volta para a cama com um dedo.

ERIBERTO E se eu recusar?

O homem misterioso sorri — um sorriso frio, sem alma.

HOMEM MISTERIOSO Você não vai recusar. Porque você conhece as pessoas que eu represento. E sabe do que elas são capazes.

Eriberto treme.

HOMEM MISTERIOSO Amanhã de manhã, você vai dar uma entrevista. Vai dizer exatamente o que eu mandar. E vai começar a limpar o estrago que você mesmo fez.

Ele se vira para sair.

Antes de cruzar a porta, olha por cima do ombro.

HOMEM MISTERIOSO E lembre-se, governador: (pausa) A gente protege quem obedece. E elimina quem atrapalha.

A porta se fecha com um estrondo.

Eriberto fica sozinho. Suando. Tremendo. Sabendo que agora está preso… não ao Estado. Mas a algo muito pior.

CORTA PARA:

 

CENA 3 — RUA DESERTA PRÓXIMA AO COPACABANA PALACE — MADRUGADA

SONOPLASTIA: groove urbano de “Rio 40 Graus” — Fernanda Abreu, instrumental, quente, tenso, vibrando como o ar pesado da madrugada carioca.

A rua está quase vazia. O caos do Copacabana Palace ficou para trás, mas o clima ainda é de perigo.

Paola caminha rápido, acompanhada de Yonã, que a guia até um carro descaracterizado da polícia.

Paola olha para os lados, inquieta.

PAOLA Yonã… (pausa, baixa) …tem alguém me seguindo.

Yonã não responde de imediato. Ela apenas observa o reflexo dos prédios no vidro do carro. E vê.

Um carro preto, sem placa dianteira, parado na esquina. Faróis apagados. Motor ligado.

Yonã fecha a porta do carro com calma.

YONàEntra. Agora.

Paola entra, assustada.

Yonã dá a volta, mas antes de entrar no carro, olha diretamente para o veículo suspeito.

O carro preto avança alguns metros. Devagar. Como um predador.

Yonã entra no carro policial e liga o motor.

PAOLA Quem são eles?

Yonã respira fundo.

YONàGente que não devia estar aqui. Gente que não trabalha pra mim. E nem pra polícia.

Paola empalidece.

PAOLA Milícia?

Yonã não responde. E o silêncio dela diz tudo.

O carro de Yonã arranca. O carro preto arranca atrás.

A música cresce — quente, urbana, frenética.

Paola olha pelo vidro traseiro.

PAOLA Eles estão vindo!

YONàEu sei.

Yonã faz uma curva brusca. O carro preto acompanha.

PAOLA Por que eles estão atrás de mim?

Yonã olha pelo retrovisor, séria.

YONàPorque você viu demais. E porque agora… (pausa) …você é a peça mais valiosa desse tabuleiro.

Paola treme.

PAOLA Isso tem a ver com a Stella? Com a Márcia?

Yonã aperta o volante.

YONàTem a ver com tudo. Com o vídeo. Com o governador. Com a família inteira. E com gente muito pior do que eles.

O carro preto acelera.

Yonã acelera também.

De repente, o carro preto tenta ultrapassar pela direita.

Paola grita.

Yonã desvia, quase batendo no meio-fio.

PAOLA Eles vão matar a gente!

YONàNão vão. Não hoje.

Yonã pega o rádio.

YONà(para o rádio) Aqui é a delegada Yonã Albuquerque. Solicitando apoio imediato na Avenida Atlântica. Veículo suspeito em perseguição. Sem placa. Possível milícia.

O rádio chia.

Nenhuma resposta.

Yonã franze o cenho.

PAOLA Por que ninguém responde?

Yonã olha para o rádio como se já soubesse a resposta.

YONàPorque alguém mandou desligar.

Paola sente o sangue gelar.

O carro preto tenta fechar o carro de Yonã.

Yonã freia bruscamente.

O carro preto passa direto.

Yonã faz uma manobra rápida e entra numa rua lateral estreita.

O carro preto tenta seguir — mas um caminhão de lixo bloqueia a passagem.

Eles ficam presos.

Yonã acelera e some na rua seguinte.

Paola respira, tremendo.

PAOLA Eles… eles vão voltar.

Yonã olha para ela, séria, firme.

YONàSim. E por isso você não volta pra casa. Não volta pro hotel. Não volta pra lugar nenhum que eles conheçam.

Paola engole seco.

PAOLA E pra onde eu vou?

Yonã olha para frente, decidida.

YONàPra um lugar onde ninguém vai te achar. Nem eles. Nem a imprensa. Nem a sua família.

Paola arregala os olhos.

PAOLA Yonã… (pausa) …o que está acontecendo?

Yonã respira fundo.

YONàO que está acontecendo, Paola… (pausa, grave) …é que as milícias entraram no jogo. E agora ninguém está seguro.

A música explode no refrão instrumental.

CORTA PARA:

CENA 4 — COPACABANA PALACE — SALA DE DESCANSO — MADRUGADA

SONOPLASTIA: silêncio abafado, ar-condicionado, tensão elegante.

A sala está vazia. Paula Lee entra, fecha a porta devagar… e encontra Márcia, ainda como “Stella”, sentada no sofá.

Mas desta vez, não há choque. Não há medo. Não há suspeita.

Há cumplicidade.

Paula fecha a porta com chave.

Márcia sorri — um sorriso real, íntimo, que ela nunca mostra para ninguém.

MÁRCIA (como “Stella”) Você demorou.

Paula se aproxima, tirando os sapatos como quem está em casa.

PAULA LEE Eu precisava garantir que ninguém me seguisse. A cidade está um caos.

Márcia ri baixo.

MÁRCIA Um caos que nós criamos.

Paula senta ao lado dela, cruzando as pernas com elegância.

PAULA LEE E que está funcionando perfeitamente.

Márcia vira-se para ela.

MÁRCIA Você viu a cara da Consuelo? E do Eriberto?

Paula sorri — um sorriso frio, satisfeito.

PAULA LEE Eu esperei anos por isso. E você também.

Márcia segura a mão de Paula — um gesto rápido, cúmplice, estratégico.

MÁRCIA Eles nunca imaginaram que você estava comigo desde o começo.

Paula aperta a mão dela.

PAULA LEE Eles nunca imaginaram que eu era mais leal a você do que a eles.

Márcia se inclina, olhando nos olhos dela.

MÁRCIA E agora… (pausa) …a parte mais difícil começa.

Paula assente.

PAULA LEE A Stella?

Márcia respira fundo.

MÁRCIA Ela quer fugir. E eu vou deixar. Mas antes… (pausa, venenosa) …ela vai me entregar tudo o que é dela.

Paula sorri — um sorriso de quem entende perfeitamente o jogo.

PAULA LEE E eu vou garantir que ninguém atrapalhe.

Márcia se levanta, ajeitando o vestido.

MÁRCIA Paula… (pausa) …você sabe que, quando isso acabar, não vai ter volta.

Paula também se levanta.

Ela se aproxima de Márcia, quase tocando o rosto dela.

PAULA LEE Eu nunca quis volta. Eu quis isso. (pausa) Eu quis você no lugar dela.

Márcia sorri — um sorriso que mistura gratidão, ambição e perigo.

MÁRCIA Então vamos terminar o que começamos.

Paula abre a porta.

Antes de sair, olha para Márcia com firmeza.

PAULA LEE Eu estou com você. Até o fim.

Márcia fica sozinha por um instante, respirando fundo.

Ela sabe que agora tem uma aliada poderosa. E que juntas… elas podem derrubar qualquer um.

CORTA PARA:

CENA 5 — REDAÇÃO DO “O GLOBO” — MANHÃ

SONOPLASTIA: teclados, telefones tocando, jornalistas correndo, TVs ligadas em todos os canais — caos organizado de redação em manhã de escândalo.

A redação está em ebulição. Telões exibem o vídeo do Copacabana Palace em looping. Jornalistas discutem, editores gritam, manchetes são reescritas a cada minuto.

No meio do caos, Paula Lee entra.

Elegante. Serena. No controle absoluto.

Ela caminha como quem já sabe que todos vão parar para ouvi-la.

E param.

O editor-chefe, Rogério, corre até ela.

ROGÉRIO Paula! Graças a Deus você veio. A cidade está um inferno. A gente precisa de uma linha editorial urgente.

Paula sorri — aquele sorriso que ninguém sabe decifrar.

PAULA LEE Eu já tenho.

Ela entrega um envelope grosso. Rogério abre.

Dentro, há:

  • fotos selecionadas
  • trechos de discursos
  • datas
  • notas de bastidores
  • e uma narrativa pronta

Tudo organizado com precisão cirúrgica.

ROGÉRIO (olhando o material) Isso… isso é perfeito. Mas… (pausa) …isso coloca a Stella como vítima absoluta.

Paula se aproxima, baixa a voz.

PAULA LEE Porque ela é.

Rogério hesita.

ROGÉRIO Mas tem gente dizendo que ela estava estranha ontem. Que parecia… diferente.

Paula sorri — um sorriso frio, calculado.

PAULA LEE Trauma. Choque. Pressão. Você escolhe o termo. Mas a narrativa é essa: (pausa) Stella é a vítima. Eriberto é o vilão. Consuelo é cúmplice. E qualquer coisa fora disso… (pausa) …é ruído.

Rogério engole seco. Ele sabe que Paula não fala por si — ela fala por poder.

Paula caminha até a mesa de um jovem repórter, Lucas, que está escrevendo uma matéria sobre “comportamento estranho da Stella”.

Ela lê por cima do ombro dele.

PAULA LEE (apenas uma frase) Apaga.

Lucas congela.

LUCAS Mas… eu tenho três fontes dizendo que—

Paula coloca a mão no ombro dele. Gentil. Mas firme como aço.

PAULA LEE Lucas… (pausa) …você quer crescer na carreira?

Ele engole seco.

LUCAS Quero.

PAULA LEE Então aprenda a reconhecer quando uma história é perigosa demais. E quando uma história é grande demais para você.

Lucas apaga tudo.

Paula sorri.

Rogério sobe num degrau e anuncia para a redação inteira:

ROGÉRIO A manchete é: “STELLA ALBUQUERQUE: A MULHER QUE ENFRENTOU O PRÓPRIO MARIDO” Subtítulo: “Exclusivo: fontes confirmam que Stella tentou proteger a irmã e foi silenciada.”

A redação explode em atividade.

Paula observa tudo com calma.

Ela pega o celular.

Envia uma mensagem para Márcia:

“A narrativa está pronta. Você é a Stella agora.”

Três segundos depois, a resposta chega:

“Ótimo. Prepare o próximo passo.”

Paula guarda o celular.

Sorri.

E diz para si mesma:

PAULA LEE Agora ninguém tira ela do trono.

CORTA PARA:

CENA 6 — COLETIVA DE IMPRENSA DE ERIBERTO — DIA

A VIRADA QUE NINGUÉM ESPERAVA

SONOPLASTIA: murmúrio de jornalistas, flashes incessantes, helicópteros sobrevoando, tensão política no ar.

O pátio externo do Palácio das Laranjeiras está lotado. Câmeras, repórteres, microfones, drones — o Brasil inteiro está assistindo.

E então, como se nada tivesse acontecido, Eriberto surge.

Terno impecável. Cabelo arrumado. Sem algemas. Sem escolta policial.

A multidão explode em gritos.

JORNALISTA 1 Governador! Como o senhor saiu da cadeia?

JORNALISTA 2 O senhor confirma envolvimento com milícias?

JORNALISTA 3 O vídeo é verdadeiro?

Eriberto ergue a mão. O silêncio cai como um golpe.

Ele respira fundo. E começa o discurso que vai virar o jogo.

O DISCURSO — ENSAIADO, PERIGOSO, EFICIENTE

ERIBERTO (voz firme, calculada) Eu fui vítima de uma armação.

Os jornalistas se entreolham.

ERIBERTO O vídeo exibido ontem no Copacabana Palace… (pausa) …foi editado. Manipulado. Criado para destruir minha reputação e desestabilizar o governo.

Um burburinho explode.

ERIBERTO Eu confio na perícia da Polícia Civil, que já está analisando o material. E confio na Justiça, que reconheceu a inconsistência das acusações… (pausa) …e determinou minha imediata liberação.

A câmera fecha no rosto dele — seguro, frio, treinado.

Eriberto respira fundo, como quem vai revelar algo grave.

ERIBERTO Eu também quero dizer que minha família está sendo alvo de uma campanha cruel. Minha irmã Paola… (pausa dramática) …está fragilizada emocionalmente. E pessoas mal-intencionadas estão se aproveitando disso.

Os jornalistas arregalam os olhos.

ERIBERTO Eu peço respeito. E peço que não deem voz a quem está claramente sendo manipulado.

Ele olha diretamente para a câmera — para o Brasil inteiro.

ERIBERTO Eu não caí. E não vou cair. Porque a verdade está do meu lado.

Os jornalistas gritam perguntas. Eriberto ignora todas.

Ele vira-se e caminha em direção à entrada do Palácio das Laranjeiras.

Os seguranças abrem caminho.

As portas se abrem.

E ele entra.

Como se nunca tivesse saído dali.

Dentro do palácio, longe das câmeras, Eriberto encontra o homem misterioso da cadeia.

Ele está encostado na parede, braços cruzados.

Eriberto para diante dele.

ERIBERTO Cumpri minha parte.

O homem sorri — um sorriso frio, satisfeito.

HOMEM MISTERIOSO E nós cumprimos a nossa. (pausa) Bem-vindo de volta, governador.

Eriberto respira fundo.

Ele sabe que agora está livre… mas também sabe que pertence a eles.

CORTA PARA:

CENA 7 — COPACABANA PALACE — SUÍTE PRESIDENCIAL — DIA

SONOPLASTIA: TV ligada ao fundo, som abafado de coletiva sendo reprisada, tensão crescente.

A suíte está silenciosa, mas o clima é de tempestade prestes a explodir.

Na TV, a coletiva de Eriberto está sendo reprisada pela quinta vez. Ele aparece sorrindo, seguro, entrando no Palácio das Laranjeiras como se nada tivesse acontecido.

Márcia, ainda como “Stella”, está de pé diante da TV, imóvel, com o rosto duro.

Paula Lee está sentada no sofá, pernas cruzadas, analisando cada detalhe com frieza profissional.

A coletiva termina.

Silêncio.

Márcia desliga a TV com um estalo seco.

O DIÁLOGO — DUAS MENTES BRILHANTES EM ALERTA

MÁRCIA (baixa, venenosa) Ele voltou.

Paula não se abala.

PAULA LEE Eu vi.

Márcia começa a andar pela suíte, inquieta, como uma pantera presa.

MÁRCIA Ele devia estar na cadeia. Ele devia estar acabado. E agora… (pausa, furiosa) …ele está no palácio.

Paula observa, calma.

PAULA LEE Isso não muda nada.

Márcia vira-se, irritada.

MÁRCIA Muda tudo! Ele tem poder. Tem aliados. E agora tem… (pausa, amarga) …proteção.

Paula se levanta devagar.

PAULA LEE E você tem algo que ele não tem.

Márcia estreita os olhos.

MÁRCIA O quê?

Paula se aproxima, firme.

PAULA LEE A narrativa. A opinião pública. A simpatia do país. E, principalmente… (pausa) …a identidade da Stella.

Márcia respira fundo. A raiva dá lugar à estratégia.

MÁRCIA Você acha que eu posso vencer ele?

Paula sorri — um sorriso frio, calculado, brilhante.

PAULA LEE Eu não acho. Eu sei.

Márcia se aproxima, agora mais calma.

MÁRCIA Então qual é o próximo passo?

Paula pega o tablet e mostra manchetes:

  • “STELLA ALBUQUERQUE: A MULHER QUE ENFRENTOU O MARIDO”
  • “GOVERNADOR ACUSAÇÃO DE ARMAÇÃO — MAS PROVAS SÃO QUESTIONADAS”
  • “QUEM ESTÁ FALANDO A VERDADE?”

Paula desliza o dedo e mostra outra manchete:

  • “STELLA PODE SER A NOVA LÍDER POLÍTICA DO RIO?”

Márcia arregala os olhos.

MÁRCIA Isso é sério?

Paula se aproxima, quase tocando o rosto dela.

PAULA LEE Muito sério. O país está com você. E se você quiser… (pausa) …pode tomar tudo o que era dele.

Márcia respira fundo — é a primeira vez que ela percebe o tamanho do que está nas mãos.

MÁRCIA E a Stella verdadeira?

Paula dá um sorriso enigmático.

PAULA LEE Ela quer fugir. Ótimo. Quanto mais longe ela estiver, mais forte você fica.

Márcia sorri — um sorriso perigoso, ambicioso, digno de protagonista de novela das nove.

MÁRCIA Então vamos derrubar o governador.

Paula toca o braço dela, firme.

PAULA LEE Não. (pausa) Vamos substituir ele.

A câmera fecha no rosto de Márcia — surpresa, medo, ambição, tudo misturado.

Ela percebe que Paula não está brincando.

E que o plano agora é muito maior do que vingança.

É poder.

CORTA PARA:

CENA 8 — PALÁCIO DAS LARANJEIRAS — GABINETE DO GOVERNADOR — ANOITECER

SONOPLASTIA: chuva forte, trovões, passos ecoando pelos corredores vazios do palácio.

O gabinete está silencioso. Eriberto revisa documentos, tentando manter a pose de governador renascido.

Um trovão ilumina a sala.

A porta se abre com violência.

Laurinha entra.

Encharcada. Olhos vermelhos. Respiração pesada.

Ela fecha a porta com força.

Eriberto empalidece.

ERIBERTO Laurinha… o que você está fazendo aqui? Você não pode—

LAURINHA (interrompe, fria) Posso. E vou.

Ela dá dois passos para dentro. A luz da tempestade ilumina o rosto dela — e ele vê que ela não está ali para conversar.

ERIBERTO Laurinha… você está nervosa. Vamos conversar com calma—

LAURINHA Calma? (pausa, riso amargo) Você quer calma?

Ela se aproxima da mesa dele.

LAURINHA Eu fui sua amante por anos. Eu te dei tudo. Eu te defendi. Eu te protegi. E você… (pausa, venenosa) …matou o Vinícius.

Eriberto fecha os olhos por um segundo — culpa involuntária.

ERIBERTO Isso é mentira. Você está sendo manipulada pela Paula Lee, pela Stella, pela Márcia—

LAURINHA (gritando) NÃO MENTE PRA MIM!

O grito ecoa pelo gabinete.

Laurinha respira fundo, firme.

LAURINHA O Vinícius era namorado da minha filha. Ele era parte da minha família. Ele descobriu coisas sobre você. E você mandou silenciar ele. E depois… (pausa, amarga) …culpou um bandidinho qualquer pra encerrar o caso.

Eriberto tenta se aproximar.

ERIBERTO Laurinha… eu fiz isso para proteger—

Ela recua como se ele fosse veneno.

LAURINHA Proteger quem? Você mesmo? Seu cargo? Sua imagem?

Ela tira algo do bolso.

Um gravador.

Eriberto congela.

LAURINHA Eu tenho tudo. Mensagens. Áudios. Provas. E se você não confessar… (pausa, firme) …eu vou contar ao Brasil inteiro o que você fez com o Vinícius.

Eriberto tenta manter a calma, mas a máscara está rachando.

ERIBERTO Laurinha… isso pode te matar. Você não sabe com quem está mexendo.

Laurinha sorri — triste, mas decidida.

LAURINHA Eu sei exatamente. E é por isso que eu não tenho mais medo.

Ela dá um passo para trás, abre a porta.

Antes de sair, olha para ele com um olhar que corta como faca.

LAURINHA Você destruiu a minha família. Agora eu vou destruir a sua.

Ela sai.

A porta bate.

Eriberto fica sozinho, pálido, tremendo, percebendo que pela primeira vez…

alguém que ele subestimou pode destruí-lo.

A tempestade lá fora explode num trovão.

CORTA PARA:

FIM

 

 

Post a Comment

Tradutor