O Jantar

CONTINUAÇÃO IMEDIATA


O clima na casa dos Mariz é completamente fúnebre. A iluminação da casa é escassa, os cômodos estão meio escuros, quase como se estivessem a luz de vela.


Ali, na sala, estão Zac, Josie, Marta e Cassie sentados no sofá, Carter e Morty de pé. Todos eles tristes, cabisbaixos e desesperados. Mesmo após perder sua mãe, Zac segue o mais centrado do grupo.


Em um gesto lento, Zac levantou sua cabeça e olhou para Carter, que também o encarava de longe. O atleta tenta encorajá-lo com um olhar profundo e um gesto de cabeça. Zac entendeu o recado.


ZAC — Ela se foi quando eu mais precisava dela!


Todos levantam as cabeças e prestam atenção no rapaz, principalmente Josie.


ZAC — Eu disse pra ela que… que tudo que eu mais queria era poder viver sem estar com um machado mirando em meu pescoço.


Marta e Cassie se entreolham, como se estivessem tentando adivinhar.


ZAC — Mas como eu poderia? Como eu poderia se eu nunca estive sem um machado apontando pro meu pescoço?


JOSIE — Você se acostumou, Zac. Você saiu do seu conforto para confortar os outros.


MARTA — Do que vocês estão falando?


ZAC — Eu sou gay, Marta. É disso que eu estou falando! E eu perdi minha mãe logo depois de me assumir pra ela.


Neste momento, Marta se levanta e caminha lentamente até Zac. Ela se abaixa e se apoia entre as pernas dele. Marta olha no fundo dos olhos do seu irmão, permanece em silêncio por alguns segundos e balança a cabeça sutilmente pra cima e pra baixo.


MARTA — Se você tivesse me dito antes, eu já teria enfiado na sua cabeça que nenhum puto e nenhuma puta tem nada a ver com quantos paus você senta, irmãozinho!


De repente, todos ali soltam risadas pelo nariz. Risadas contidas, mas percebidas. E então Zac solta uma risada sincera e contagia todos ali a sua volta.


ZAC — Você não existe, sua baranga!


Marta dá um beijo na mão de Zac e se levanta, dando meia volta e caminhando até a mesinha de bebidas em um canto da sala.


MARTA — Vai ver eu já fui morta pelo assassino. Mas vamos lá! Nenhum dos que se foram iriam gostar de nos ver assim. Vamos lá, levantem!


Ela pega seis copos de shot e destampa uma garrafa de tequila. Zac se levanta na mesma hora.


JOSIE — O que você tá fazendo, sua maluca?


MORTY — Tu nunca ficou bêbada, né, Josie?


CASSIE — Eu já vi ela bêbada uma vez!


Josie fuzila Cassie com o olhar e faz sua meia irmã dar um risinho cínico.


CASSIE — Eu não tenho mais raiva disso, minha filha. Quem liga que você ficou com meu ex namorado depois de encher a cara escondida?


MARTA — Olha que vagabunda! Vamos lá, Josie, só um brinde. Um brinde pra dona Loreta, pra Jenna, pra Sarah… e pra Mary, aquela cachorra. Que Deus a tenha!


Marta distribui os shots de tequila para cada um dos que estão ali. Eles formam um círculo e se entreolham, sorridentes.


ZAC — Um brinde às vidas das pessoas que amamos incondicionalmente e que já se foram. Mas um brinde também aos que ainda estão aqui e que podem fazer algo diferente. Um brinde a nós!


CASSIE — Quero também propor uma trégua. Prometo esquecer que a Josie é uma vadia cínica, que a Marta é quase uma prostituta e que o Zac um dia foi hétero!


Eles soltam risadas sinceras e se entreolham novamente.


ZAC — Eu quero agradecer ao Carter por ter sido um herói que salvou eu, a mocinha indefesa, das garras do assassino!


Carter sorri, olhando diretamente para Zac.


CARTER — Um brinde ao Zac, que teve coragem e resiliência para passar por esse turbilhão de emoções e ainda assim continuar protetor, como um pai de família provedor!


ZAC — Seu palhaço!


Eles brindam e o barulho do tchim tchim ecoa pela casa. Todos eles bebem e fazem caretas. Até que…


MARTA — Mais uma?


CORTA PARA:


Na sala ecoa uma música em volume médio. Se trata da música Supercut, da cantora Lorde.


Todos seguem na sala, deitados um por cima do outro no chão da sala, entre os sofás. Eles estão tristes, mas compartilhando o momento com maturidade.


Zac está com sua cabeça pousada na coxa de Carter e Marta está estirada ao lado do seu irmão.


Zac passeia seu olhar por todo o teto acima da sua visão, enquanto Carter começa a passear seus dedos por entre os fios sedosos de Zac em um cafuné surpresa. O sono chega e Zac começa a adormecer ali mesmo, ouvindo a Outro da música cada vez mais etérea e abafada.


CORTA PARA:


Lentamente, Zac vai despertando. Aquela sensação de casa escura, silenciosa e, dada as circunstâncias, um pouco perigosa, toma conta de tudo ali. Ele suspira fundo, esfrega suas mãos em seus olhos a fim de acordar de vez, e em seguida passeia seus olhos por toda a sala. Todos estão ali, com exceção de Carter.

ZAC – O banheiro te aguarda, Zac! Lembra que é nesse momento que tudo se desenrola.

Ele então levanta com cuidado e segue na direção do banheiro. No caminho, ele ouve um barulho vindo da cozinha, quase um batido de panela distante. A casa ainda está meio escura, quase fúnebre.

Zac então se move lentamente, a passos curtos, com a maior cautela do mundo. Ele enfim chega na porta da cozinha, se deparando com a cena mais improvável do mundo: Carter de avental, cozinhando da forma mais organizada possível. Zac sorri, surpreso. Ele acha graça do brutamonte cozinhando na maior calma do mundo.

ZAC – O que será que teremos para o jantar hoje, chef?

Carter então dá um leve pulo enquanto grita, assustado, e se vira, deparando com Zac em pé na porta da cozinha.

CARTER – Porra, Zac! Se tu me assustar assim de novo, provavelmente o jantar vai ser meu cadáver.

ZAC – Não é pra tanto, ôh brutamonte! – Ele se move lentamente até mais perto do seu amigo. – O que é isso aí que você tá cozinhando? O cheiro tá muito bom, cara!

CARTER – É filé com fritas! Sabe, eu cozinho muito bem. Né por nada não, mas eu daria um ótimo marido.

ZAC – Hum, tá querendo impressionar a Marta? Ela vai adorar saber que você serve pra mais coisas além de transar. – Zac analisa Carter com o olhar por alguns segundos, enquanto o atleta suspira fundo, durante alguns movimentos. – Sinto que agora você pode ser um bom namorado pra minha irmã.

Carter encara Zac no fundo dos olhos e suspira mais uma vez. Ele assente com a cabeça algumas vezes e morde o próprio lábio inferior.

CARTER – Mano, eu… eu realmente não quero mais ficar com a Marta. Sem ofensa, mas pra mim ela é página virada. – Ele pensa um pouquinho no que vai falar. – Eu… eu quero alguém que saiba enxergar minhas qualidades e meus defeitos na mesma intensidade. Alguém que me olhe e me enxergue como o amor da vida, como um cara que vai fazer de tudo pra te trazer felicidade…

Neste momento, Josie chega na cozinha sem pedir licença. Os dois se assustam e tentam disfarçar a conversa que estavam tendo mexendo em alguns pratos e panelas.

JOSIE – Que cheiro bom é esse? Hum, filé com fritas. Que delícia!

Zac e Carter se entreolham de longe, com o clima de uma conversa inacabada pairando sob suas cabeças.

CORTA PARA:

Todos sentados à mesa, o clima segue meio tenso. Os cinco irmãos restantes juntos a Carter jantam quase tranquilamente, como se fosse a última refeição das suas vidas. Zac come um pedaço de filé, enquanto Marta e Cassie colocam batatas na boca… Já Morty não vê sentido em comê-los separados. Josie mastiga calmamente.

CARTER – Então… Essa coisa, vocês sabem.. de que vocês são irmãos, é verdade?

Todos ali se entreolham, enquanto param de mastigar.

MARTA – É verdade! Ganhei mais três irmãozinhos pra dividirem herança comigo.

JOSIE – Às vezes você fala de um jeito, Marta… parece que você daqui é a que tem mais motivos pra… você sabe, esfaquear todo mundo! De repente ficar com a herança pra você… Quantos restarão ao final, Marta?

MARTA – Me diz você, Josie! Amargurada, vive discutindo com todo mundo… fora que é a única que insiste em transferir a culpa pra alguém de todas as formas possíveis. Por que? Pra tirar as suspeitas de cima de você, enquanto mata todo mundo pelas costas?

ZAC – Ou, vamos parar vocês duas? Ninguém aqui vai matar ninguém. Estamos no mesmo barco, lembram? Todos nós já fomos perseguidos, Já tentaram nos matar!

CARTER – Com exceção de duas pessoas.

Todos olham diretamente para Cassie e Morty, sentados um ao lado do outro. Eles praticamente engasgam com a comida.

CASSIE – Não olhem assim pra mim. Eu não tenho disposição nem pra ir transar, imagina sair para matar?

MORTY – E eu sou gay! – Todos o olham de forma incrédula. – O que foi? Tá escrito nas regras, é assim que funciona. Gays nunca são os assassinos.

ZAC – Gente, fiquem calmos. Não vamos conseguir raciocinar assim. – Alguns respiram fundo, outros põem as mãos nas cabeças. – A Jenna… ela só foi atacada quando veio à tona que vocês são filhos do meu pai. O assassino tem algo pessoal com Victor Mariz!

Neste momento, ao fundo, pés calçados com botas pretas descem lentamente pela escuridão da escada. Sem fazer barulho. Enquanto todos a mesa conversam, a figura encapuzada vai descendo e, em cada degrau abaixo, parte da sua bata é revelada, junto com a lâmina do machado refletindo a luz da lareira ali perto.

MARTA – Pensem um pouco. Meu pai teve duas famílias. Esse homem era completamente perigoso. Quem garante que ele não tenha inimigos soltos por aí querendo vingança?

O encapuzado vai se aproximando da mesa, quando de repente para no corredor sem que ninguém o perceba e fique ali, estático, segurando o cabo do machado. Justamente no corredor escuro que fica de frente para a lateral vazia da mesa.

ZAC – E mais. Se o objetivo aparentemente é eliminar os herdeiros de Victor, quem garante que ele não possa ter tido uma terceira família por aí?

Um barulho irritante ecoa do corredor. Todos gelam, mas não possuem tempo para reagir. O encapuzado prontamente corre e pula em cima da mesa, já na posição de ataque e todos ali gritam incessantemente, enquanto são encarados pelo sádico em cima da mesa.

Em um único golpe, ele tenta acertar o rosto de Marta com o machado, porém ela se esquiva e vira de vez com a cadeira, caindo em cheio no chão. Josie e Zac recebem sinal de Carter para correr, enquanto ele ajuda Marta a levantar.

Enquanto isso, Cassie e Morty rapidamente tentam correr até a porta, com o encapuzado em seu encalço, até que chegam na entrada e se deparam com Jackson já abrindo a porta. Antes de qualquer palavra, o assassino vem correndo e tenta acertar Morty e Cassie, que se abaixam e sobra para o policial. O machado vai direto na sua testa, arrancando o topo da sua cabeça. O corpo cai e, com o impacto da queda, o cérebro de Jackson sai do crânio embolando pelo chão. Todos gritam desesperadamente e saem correndo dali, enquanto o chão da sala de jantar fica todo coberto de sangue.

CORTA PARA:

Carter ajuda Marta a andar mais rápido e vai pelos cômodos, em busca de um esconderijo seguro. Eles entram em um quarto e Carter coloca Marta dentro do guarda-roupas.

CARTER – Eu vou precisar que você fique em silêncio, tá certo? Eu vou voltar pra te buscar junto com os outros.

MARTA – Não me abandone, Carter. Por favor!

CARTER – Eu jamais deixaria você para trás, Marta. Jamais!

Ele dá um beijo em sua testa e fecha a porta do móvel. Carter sai daquele quarto, na esperança de encontrar seus amigos ainda com vida.

CORTA PARA:

Zac corre pelos corredores da casa, com o assassino em seu encalço. O assassino tenta o pegar, porém Zac entra em um dos quartos e tenta fechar a porta, mas a brutalidade do chute do carrasco faz com que a porta seja arrombada de forma bruta. Zac vai recuando com as tentativas de investidas com o machado, porém chega até a parede e sente que é o seu fim. Até que o encapuzado mira em seu pescoço e tenta golpear, mas Zac é mais rápido, se abaixa e se joga para frente, agarrando-o pela cintura e se arremessando no chão.

ZAC – Eu vou acabar com você hoje, seu filho da puta!

Agora Zac monta em cima do homem e desfere vários murros em seu rosto, fazendo a pequena malha fina em seu rosto ficar ensanguentada. Neste momento, o encapuzado tenta sair da situação e desfere um soco forte na costela de Zac, que urra de dor devido aos machucados da queda da escada anteriormente. O assassino consegue tirar Zac de cima dele e finalmente encontra seu machado. Mas antes, desfere alguns chutes na barriga do rapaz, fazendo-o se contorcer de dor.

Zac se vira, ainda no chão, e tenta se arrastar até a porta. Ele se arrasta com dificuldade, se sentindo todo, com a visão turva, até que Carter aparece ali na porta, de pé, se segurando na parede. Ele parece meio tonto também, cambaleando. E aí de repente cai diretamente no chão, e fica completamente estático.

ZAC – Carter! Me ajuda… me… Carter!

Zac vai ficando cada vez mais inconsciente. Até que tudo escurece completamente.

CENA 02: LUGAR DESCONHECIDO/ INT./ NOITE.

Um barulho ao longe. Gotas de água caindo em poças. Um cheiro estranho de terra molhada. Zaz está lentamente recobrando sua consciência. Ele abre os olhos devagar e sente um desconforto em suas mãos. Ele olha para cima e percebe que elas estão amarradas, como se estivesse pendurados por elas. Ele olha abaixo e nota um tronco que serve de apoio aos seus pés. Ele tenta se mexer, mas geme de dor ao notar que seu corpo está completamente machucado. Ele está amordaçado.

Zac observa ao seu redor e percebe que a sala está completamente suja. É iluminada apenas por uma lâmpada ali no meio do teto. Paredes em tons de marrom por conta do barro amolecido, chão repleto de lama e alguns objetos ali no centro, incluindo uma mesa de tamanho médio. Enquanto isso, gotas de água minam do teto e ecoam em algumas poças no chão. A sala é em formato circular.  A respiração dele pesa ainda mais em desespero quando nota que ao redor da sala, na mesma situação que ele, estão Marta, Josie, Cassie, Morty e Carter.

Zac tenta se mexer na tentativa de se soltar, porém percebe que é inútil tentar quando escorrega do tronco abaixo dos seus pés e machuca ainda mais suas mãos. Ele começa a gritar e, lentamente, os outros vão acordando e se dando conta da situação. Uma histeria coletiva se inicia no ambiente. Todos estão em desespero.

Até que, de repente, o encapuzado entra na sala portando uma enorme serra giratória. Ele passeia um pouquinho pela sala, na tentativa de assustá-los. O assassino para em frente a mesa e, de forma brusca, deposita a arma ali em cima. Ele encara Marta. Depois, encara Josie. Em seguida, Cassie. Encara Morty. Em seguida, Carter, E, por fim, Zac. Ele fita os olhos de Zac até chegar em sua alma.

ENCAPUZADO – Quem será o primeiro?

Ele liga a serra e o objeto começa a girar em um barulho desesperador. Todos sentem que estão prestes a morrer.

CONTINUA…

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