A OUTRA
CAPÍTULO 34
UMA NOVELA DE TAÍS GRIMALDI
CENA 1 — PALÁCIO DAS LARANJEIRAS — QUARTO DE MARISA — NOITE
O quarto está em meia-luz. Marisa dorme, frágil, respirando com dificuldade.
Márcia, ainda fingindo ser Stella,
está sentada ao lado da filha, acariciando o cabelo dela com uma ternura
profunda — a ternura de uma mãe que quase perdeu tudo.
A porta se
abre bruscamente.
CONSUEL0 entra.
Fria.
Impecável. Olhar de águia.
Ela congela
ao ver a cena.
CONSUEL0 (venenosa) O que você pensa que
está fazendo?
Márcia se
levanta devagar, mantendo o disfarce.
MÁRCIA (como “Stella”) Eu… só
estava cuidando da Marisa.
Consuelo dá
um passo à frente, olhos estreitos.
CONSUEL0 Cuidando? Você nunca cuidou de
ninguém. Muito menos dessa… (pausa, cruel) …drogadinha.
Márcia
congela. O sangue ferve. O olhar muda.
MÁRCIA (baixa, firme) Não fale assim da
minha filha.
Consuelo ri
— um riso curto, debochado.
CONSUEL0 Sua filha? Ah, por favor. Essa
menina sempre foi um estorvo. Uma vergonha. Uma fraqueza ambulante.
Márcia dá
um passo à frente.
MÁRCIA (olhos marejados, mas firme) Ela é
uma menina que sofreu. E você sabe disso.
Consuelo se
aproxima, rosto a centímetros do dela.
CONSUEL0 Ela é uma inútil. Uma fracassada.
Uma vergonha pra esse sobrenome. E se você tivesse um pingo de juízo, teria
deixado ela apodrecer longe daqui.
Silêncio.
Márcia
respira fundo.
E então—
MÁRCIA (baixa, gelada) Cala a boca.
Consuelo
arregala os olhos.
CONSUEL0 Como é que é?
Márcia
encara a sogra com uma força que não combina com “Stella”.
MÁRCIA Eu disse: cala. a.
boca.
Consuelo
abre a boca para retrucar—
E MÁRCIA A
ESTAPEIA.
Um tapa
seco. Elegante. Preciso. Humilhante.
Consuelo
leva a mão ao rosto, chocada.
CONSUEL0 (atônita) Você… você me bateu?!
Márcia se
aproxima, firme, imponente, mãe em guerra.
MÁRCIA Eu bato em qualquer pessoa que
ouse chamar minha filha do que você chamou. Qualquer pessoa. Inclusive você.
Consuelo
tenta recuperar o controle, mas está abalada.
CONSUEL0 (engolindo o orgulho) Quem é você?
Márcia
sorri — um sorriso pequeno, perigoso, definitivo.
MÁRCIA A pessoa que você nunca conseguiu
destruir.
Consuelo dá
um passo para trás, assustada.
Márcia dá
outro passo à frente.
MÁRCIA E a partir de agora… (pausa,
intensa) …você vai pensar duas vezes antes de tocar no nome da minha filha.
Consuelo
tenta falar, mas nada sai.
A câmera
fecha no rosto de Márcia — forte, renascida, implacável.
CORTA PARA:
CENA 2 — PALÁCIO DAS LARANJEIRAS — CORREDOR / ESCRITÓRIO DE ERIBERTO — NOITE
O corredor do palácio está silencioso, mas o silêncio é quebrado de repente por passos rápidos, furiosos, quase descontrolados.
Consuelo surge, descendo as escadas como uma tempestade. O rosto ainda marcado pelo tapa. Os olhos arregalados. O orgulho ferido. A fúria transbordando.
Ela atravessa o hall como um furacão.
Funcionários se afastam. Ninguém ousa perguntar nada.
Consuelo chega à porta do escritório de Eriberto e arromba a entrada sem bater.
INT. ESCRITÓRIO DE ERIBERTO — NOITE
Eriberto está ao telefone, tenso, discutindo algo sobre “controle de danos”. Quando vê a mãe entrar daquele jeito, empalidece.
ERIBERTO Mãe? O que aconteceu?
Consuelo fecha a porta com força.
CONSUEL0 (à beira do colapso) A Stella… (pausa, respirando fundo) …a Stella enlouqueceu!
Eriberto larga o telefone.
ERIBERTO Como assim enlouqueceu?
Consuelo anda de um lado para o outro, descontrolada.
CONSUEL0 Ela me bateu! Você ouviu bem: ela me bateu! Aquela ingrata… aquela… aquela mulher!
Eriberto arregala os olhos.
ERIBERTO A Stella te bateu?
CONSUEL0 (gritando) SIM! E por causa daquela menina inútil! Aquela menina que só nos traz vergonha!
Eriberto esfrega o rosto, nervoso.
ERIBERTO Isso não faz sentido… a Stella nunca—
CONSUEL0 (interrompe, histérica) ELA NÃO É MAIS A MESMA! Ela está diferente, Eriberto! Ela fala diferente, age diferente… (pausa, tremendo) …olha pra mim como se fosse outra pessoa.
Eriberto se aproxima, tentando acalmá-la.
ERIBERTO Mãe, você está exagerando. A Stella está traumatizada, ela—
CONSUEL0 (berrando) TRAUMATIZADA NÃO DÁ TAPA NA CARA DA SOGRA!
Silêncio.
Eriberto respira fundo, preocupado.
ERIBERTO Eu vou falar com ela. Agora.
Consuelo segura o braço dele com força.
CONSUEL0 (baixa, venenosa) Faça mais do que falar. Ela está fora de controle. E se ela abrir a boca… (pausa) …acabou pra todos nós.
Eriberto fica pálido.
CORTE PARA — SUÍTE DE “STELLA” (MÁRCIA)
A câmera revela Márcia, sentada na cama, com o laptop aberto.
Na tela: a transmissão ao vivo das câmeras ocultas do palácio.
Ela ouviu tudo. Cada palavra. Cada insulto. Cada ameaça.
O rosto dela está calmo… calmo demais.
Ela fecha o laptop devagar.
MÁRCIA (baixa, fria) Então é guerra.
A câmera fecha no sorriso dela — um sorriso pequeno, perigoso, calculado.
CORTE SECO.
CENA 3 — PALÁCIO DAS LARANJEIRAS — CORREDOR / SUÍTE DE “STELLA” — NOITE
O palácio está silencioso, mas é um silêncio tenso, elétrico, como se as paredes soubessem que algo está prestes a explodir.
Eriberto caminha rápido pelo corredor, ainda atordoado com o relato de Consuelo. O rosto dele está rígido, preocupado, mas também irritado — irritado porque perdeu o controle.
Ele para diante da porta da suíte onde “Stella” está hospedada. Respira fundo. Endurece o maxilar.
E entra sem bater.
INT. SUÍTE DE “STELLA” — NOITE
A luz é baixa. O ambiente está arrumado demais — como se alguém tivesse passado os últimos minutos tentando parecer calma.
Márcia, ainda disfarçada como Stella, está sentada na poltrona, com um livro aberto no colo. Ela levanta o olhar devagar, com a serenidade ensaiada de quem sabe que está sendo observada.
MÁRCIA (como “Stella”) Eriberto… que surpresa.
Eriberto fecha a porta com força.
ERIBERTO (duro) O que aconteceu entre você e a minha mãe?
Márcia respira fundo, mantendo a máscara.
MÁRCIA Ela veio me provocar. Eu só me defendi.
Eriberto dá um passo à frente.
ERIBERTO Você bateu nela.
Márcia não recua.
MÁRCIA Ela chamou a Marisa de drogadinha. De inútil. De vergonha. Eu não ia permitir.
Eriberto aperta os olhos, irritado.
ERIBERTO Você perdeu o controle.
Márcia sorri — um sorriso pequeno, calculado.
MÁRCIA Ou talvez eu tenha finalmente recuperado.
Eriberto se aproxima ainda mais, agora a centímetros dela.
ERIBERTO (baixa, ameaçadora) Você está diferente, Stella. Muito diferente. E eu não gosto disso.
Márcia mantém o olhar firme.
MÁRCIA Talvez você nunca tenha conhecido a verdadeira Stella.
Eriberto a encara, desconfiado.
ERIBERTO Eu conheço muito bem a mulher com quem me casei.
Márcia inclina a cabeça, provocante.
MÁRCIA Tem certeza?
Silêncio.
Eriberto respira fundo, tentando recuperar o controle da situação.
ERIBERTO Amanhã… (pausa) …vamos conversar de verdade. Sem máscaras. Sem histerias.
Márcia sorri — um sorriso que ele não entende, mas que o deixa desconfortável.
MÁRCIA Claro, Eriberto. Amanhã será… esclarecedor.
Eriberto dá um último olhar desconfiado e sai, batendo a porta.
CORTE PARA — CÂMERA OCULTA NO QUARTO
A imagem treme levemente. A lente foca em Márcia.
Ela se levanta devagar. Fecha o livro. E caminha até o laptop escondido na gaveta.
Abre.
Na tela: a gravação completa da conversa entre Consuelo e Eriberto.
Márcia dá um sorriso frio, vitorioso.
MÁRCIA (baixa, satisfeita) Amanhã, Eriberto… (pausa) …quem vai tirar a máscara é você.
Ela fecha o laptop com um clique seco.
CORTA PARA:
CENA 4 — PALÁCIO DAS LARANJEIRAS — ESCRITÓRIO DE ERIBERTO — NOITE
O escritório está em penumbra. Apenas o abajur aceso. O clima é de conspiração.
Consuelo está de pé, ainda com o rosto marcado pelo tapa. Eriberto está sentado, tenso, girando um copo de uísque entre os dedos.
A porta se fecha atrás deles. Estão sozinhos.
CONSUEL0 (baixa, venenosa) Ela passou dos limites, Eriberto. Primeiro me enfrenta… Depois me agride… E agora está completamente fora de controle.
Eriberto respira fundo.
ERIBERTO Eu sei. Mas precisamos agir com cuidado. Ela ainda é… Stella.
Consuelo dá um sorriso frio.
CONSUEL0 É exatamente por isso que precisamos agir. Antes que ela destrua tudo.
Eriberto olha para a mãe, desconfiado.
ERIBERTO O que você está sugerindo?
Consuelo se aproxima, lenta, calculada.
CONSUEL0 Eu estou dizendo que… (pausa) …talvez seja hora de um “acidente”.
Eriberto arregala os olhos.
ERIBERTO Mãe…
CONSUEL0 (baixa, firme) Não estou falando de nada grotesco. Nada que manche o nosso nome. Apenas… (pausa) …um imprevisto. Uma fatalidade. Algo que coloque um ponto final nessa ameaça.
Eriberto passa a mão no rosto, nervoso.
ERIBERTO E você quer que isso aconteça com a Stella?
Consuelo sorri — um sorriso pequeno, cruel.
CONSUEL0 Não, meu filho. Com a Paola.
Silêncio.
Eriberto fica imóvel.
ERIBERTO A Paola?
CONSUEL0 Ela sabe demais. Ela provoca demais. Ela está mexendo onde não deve. E, pior… (pausa) …ela está influenciando a Stella. Ou quem quer que aquela mulher seja agora.
Eriberto pensa por alguns segundos.
ERIBERTO E o que você sugere?
Consuelo se aproxima ainda mais, sussurrando:
CONSUEL0 Um tropeço na escada. Um carro que não freia. Uma queda boba. Algo… inevitável.
Eriberto fecha os olhos. Respira fundo. E quando abre — a decisão está tomada.
ERIBERTO Eu conheço alguém que pode resolver isso. Discretamente.
Consuelo sorri, satisfeita.
CONSUEL0 Então resolva. Antes que ela resolva por nós.
CORTE PARA — SUÍTE DE “STELLA” (MÁRCIA)
A câmera revela Márcia, sentada na cama, com o laptop aberto.
Na tela: a transmissão ao vivo da conversa entre Consuelo e Eriberto.
Ela ouviu tudo. Cada palavra. Cada ameaça. Cada intenção.
O rosto dela está sério. Muito sério.
Ela fecha o laptop devagar.
MÁRCIA (baixa, gelada) Eles vão atrás da Paola…
Ela se levanta.
MÁRCIA …então eu vou atrás deles.
A câmera fecha no rosto dela — determinado, perigoso, pronto para agir.
CORTA PARA:
CENA 5 — CLÍNICA SÃO DAMIÃO — NOITE
A clínica está silenciosa, quase sombria. Corredores longos, luzes frias, enfermeiros cansados. Um lugar que parece seguro — mas que, naquela noite, é uma prisão.
No quarto isolado, a verdadeira Stella está sentada na cama. Olhos atentos. Respiração curta. Ela sabe que algo está errado. Sabe que está ali contra a própria vontade. Sabe que precisa sair.
A maçaneta gira.
Stella prende a respiração.
A porta se abre.
SELENA entra.
Não é a Selena cuidadosa e submissa que todos conhecem. É a Selena decidida, clandestina, perigosa — a Selena que Stella sempre pôde confiar.
Ela fecha a porta rapidamente.
SELENA (baixa, urgente) Stella… sou eu. Vim te tirar daqui.
Stella arregala os olhos, surpresa e aliviada ao mesmo tempo.
STELLA Selena… como você—?
SELENA Depois. Agora levanta. Eles vão perceber que eu troquei os turnos.
Stella se levanta, ainda fraca, mas determinada.
STELLA Eles acham que eu estou sedada.
Selena abre um sorriso rápido.
SELENA Eu sei. Fui eu que troquei o remédio.
Stella segura a mão dela — um gesto de gratidão profunda.
STELLA Você arriscou tudo.
SELENA Por você? Sempre.
Selena abre a porta com cuidado. O corredor está vazio.
As duas caminham rápido, mas silenciosas. Selena conhece cada câmera, cada ponto cego, cada enfermeiro que dorme no plantão.
Elas chegam à ala de serviço.
STELLA (olhando ao redor) Por aqui?
SELENA É a única saída sem registro.
Selena abre a porta de emergência com um cartão clonado. Um alarme deveria tocar — mas não toca.
STELLA Você desligou o sistema?
SELENA Eu desliguei o hospital inteiro, se for preciso.
As duas descem a escada de incêndio.
Lá fora, no estacionamento lateral, um carro preto espera com o motor ligado.
Selena abre a porta traseira.
SELENA Entra. Rápido.
Stella entra. Selena dá a volta e assume o volante.
Antes de arrancar, Stella segura o braço dela.
STELLA Selena… (baixa, intensa) Obrigada.
Selena olha para ela pelo retrovisor.
SELENA A gente ainda não está segura. Mas vamos ficar.
O carro arranca na noite.
A câmera sobe, revelando a fachada da clínica — silenciosa, imponente, sem perceber que sua prisioneira mais valiosa acaba de escapar.
CORTA PARA:
CENA 6 — PALÁCIO DAS LARANJEIRAS — SUÍTE DE “STELLA” (MÁRCIA) — NOITE
A suíte está em penumbra. A tensão é quase palpável.
Márcia, ainda disfarçada como Stella, caminha de um lado para o outro. Ela acabou de ouvir, pelas câmeras ocultas, que Consuelo e Eriberto planejam um “acidente” para Paola.
O coração dela bate rápido. Mas o rosto… o rosto está frio, calculado, pronto.
De repente—
A porta se abre com violência.
Eriberto entra, ofegante, transtornado.
ERIBERTO (duro, sem rodeios) A gente precisa conversar. Agora.
Márcia se vira devagar, mantendo a máscara de Stella.
MÁRCIA (como “Stella”) Claro, meu amor. O que houve?
Eriberto se aproxima, tenso, desconfiado.
ERIBERTO A minha mãe está certa. Você está diferente. Muito diferente.
Márcia sorri — um sorriso suave, perigoso.
MÁRCIA As pessoas mudam, Eriberto.
ERIBERTO (olhando nos olhos dela) Mas não tanto. Não assim.
Silêncio.
Ele dá mais um passo, agora a centímetros dela.
ERIBERTO Eu quero saber… (pausa) …quem é você.
Márcia mantém o olhar firme, mas o ar pesa.
MÁRCIA Eu sou a mulher que você casou.
ERIBERTO (baixa, ameaçadora) Será?
Márcia sente o perigo. Mas antes que ela responda—
Um alarme toca ao longe. Um bip contínuo, urgente, vindo do sistema de segurança do palácio.
Eriberto se vira, irritado.
ERIBERTO O que é isso agora?
Márcia sabe. Ela sabe exatamente o que é.
Ela corre até o laptop escondido na gaveta. Abre.
Na tela:
IMAGEM AO VIVO DA CLÍNICA SÃO DAMIÃO. Câmeras externas. Funcionários correndo. Luzes piscando. Portas sendo abertas.
E então—
A VERDADEIRA STELLA aparece na imagem, entrando no carro com Selena.
Eriberto congela.
ERIBERTO (sem ar) Isso é… isso é a Stella?!
Márcia fecha o laptop com um estalo seco.
Ela olha para Eriberto.
E sorri.
Um sorriso lento. Cruel. Vitorioso.
MÁRCIA (baixa, cortante) Agora você sabe quem eu sou.
Eriberto empalidece.
Márcia dá um passo à frente, dominando a cena.
MÁRCIA E amanhã… (pausa, intensa) …o Brasil inteiro vai saber também.
A câmera fecha no rosto dela — um rosto que não é Stella, não é inocente, não é frágil.
É o rosto de Márcia, a mulher que tomou o lugar da outra e agora controla o jogo.
CORTA PARA:
FIM
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