A OUTRA

CAPÍTULO 36

UMA NOVELA DE TAÍS GRIMALDI



CENA 1 — COPACABANA PALACE — SALÃO PRINCIPAL — NOITE

SONOPLASTIA: clima instrumental de “(I Can’t Get No) Satisfaction” — The Rolling Stones (somente o groove — tenso, sofisticado, pulsante)

O salão está em ebulição. Todos ainda digerem a entrada da verdadeira Stella, acompanhada de Selena.

Mas ninguém — absolutamente ninguém — está preparado para o que vem a seguir.

A música pulsa. Os flashes disparam. O clima é de duelo.

Márcia, ainda fingindo ser Stella, permanece no centro do salão, impecável, dona da cena.

Stella, a verdadeira, caminha até ela com Selena ao lado — mas com uma expressão… diferente. Um brilho nos olhos. Uma decisão tomada.

Quando Stella para diante de Márcia, o salão inteiro prende a respiração.

E então—

STELLA (a verdadeira) (sorriso suave, voz doce) Márcia… minha irmã.

Um choque percorre o salão.

Márcia não pisca.

Stella continua:

STELLA (para todos ouvirem) Eu não podia deixar você passar por isso sozinha.

Selena, atrás dela, baixa a cabeça — cúmplice.

Os convidados murmuram. Consuelo quase cai. Eriberto fica sem ar.

Márcia entende imediatamente: Stella está fingindo ser Márcia. Ela entrou no jogo.

E responde no mesmo tom — elegante, venenosa, brilhante.

MÁRCIA (como “Stella”) (um sorriso que corta) Que surpresa… Eu achei que você estivesse… indisposta.

Stella dá um passo à frente, mantendo a máscara.

STELLA (como “Márcia”) Eu estava. Mas você sabe como é… (pausa, doce e cruel) …a família sempre chama.

O salão inteiro observa, hipnotizado.

É um duelo. Um balé. Um jogo de espelhos.

MÁRCIA (olhando Stella nos olhos) Fico feliz que tenha vindo. Afinal… (pausa) …não é sempre que a gente encontra alguém tão parecida com a gente.

Stella sorri — um sorriso que só Márcia entende.

STELLA Às vezes, querida… (pausa) …a semelhança é mais profunda do que parece.

Selena observa tudo, atenta, pronta para intervir se necessário.

Consuelo se aproxima, trêmula.

CONSUEL0 (para Stella, confusa) Márcia… você… você está bem?

Stella vira-se para ela com perfeição teatral.

STELLA (como “Márcia”) Estou ótima, Consuelo. Obrigada pela preocupação. (pausa, venenosa) É raro você demonstrar esse tipo de afeto.

Consuelo fica sem chão.

Márcia sorri discretamente — Stella está jogando muito bem.

Eriberto tenta manter o controle.

ERIBERTO (para Márcia, tenso) Stella… podemos conversar?

Márcia vira-se para ele com a elegância de uma rainha.

MÁRCIA (como “Stella”) Claro, meu amor. Mas antes… (olha para Stella) …eu gostaria de agradecer à minha irmã. Por estar aqui. Por me apoiar. Por ser tão… (pausa, cortante) …parecida comigo.

Stella inclina a cabeça, aceitando o golpe.

STELLA (como “Márcia”) Sempre, irmã. Sempre.

A música cresce.

O salão inteiro está em transe.

Duas mulheres idênticas. Duas máscaras. Duas farsas. Um duelo silencioso, elegante, venenoso — puro Gilberto Braga.

A câmera fecha nos rostos das duas.

Elas sorriem.

Mas os olhos… Os olhos dizem outra coisa:

A guerra começou. E agora é pessoal.

CORTA PARA:

 

CENA 2 — COPACABANA PALACE — SALÃO PRINCIPAL — NOITE

(continuação direta do duelo de máscaras)

SONOPLASTIA: o groove instrumental de “(I Can’t Get No) Satisfaction” segue pulsando, mas agora mais baixo, como um coração acelerado tentando não denunciar o pânico.

O salão continua hipnotizado pelas duas “Stellas”. Mas duas pessoas não estão encantadas — estão alertas.

Paola e Yonã.

As duas se aproximam devagar, cada uma por um lado do salão, como predadoras farejando algo fora do lugar.

PAOLA OBSERVA

Paola está parada perto da mesa de champanhe, mas não bebe. Ela observa.

Os olhos dela vão de Márcia para Stella. De Stella para Márcia.

Ela franze o cenho.

PAOLA (baixa, para si mesma) Tem alguma coisa… errada.

Ela dá um passo à frente, tentando captar detalhes:

— A postura. — O olhar. — A forma como cada uma respira. — A tensão entre elas.

Paola conhece Stella desde sempre. E conhece Márcia o suficiente para saber quando alguém está mentindo.

E ali… as duas estão mentindo.

YONÃ PERCEBE

Do outro lado do salão, Yonã observa com a frieza de uma investigadora experiente.

Ela não olha para o vestido, para o cabelo, para o glamour. Ela olha para:

— O microgesto. — A hesitação. — O olhar que foge. — A respiração que acelera. — A troca de peso no pé. — O silêncio entre as palavras.

E ela vê.

Ela vê tudo.

YONà(baixa, para si) Isso não é normal. Nenhuma das duas está confortável.

Ela se aproxima mais, discretamente, como quem apenas circula pelo evento.

Mas seus olhos estão fixos nas duas mulheres.

O ENCONTRO DAS DUAS

Paola e Yonã acabam lado a lado, sem terem combinado nada.

Elas trocam um olhar rápido — um olhar que diz tudo.

PAOLA (baixa, tensa) Você também viu?

YONà(sem tirar os olhos das duas) Vi. E não gostei.

PAOLA A Stella… (pausa) …não é a Stella.

Yonã respira fundo.

YONàE a Márcia… (pausa) …também não está sendo a Márcia.

As duas olham para o centro do salão, onde Márcia e Stella continuam o teatro social mais perigoso do Rio.

PAOLA Isso é um jogo.

YONàÉ. E alguém vai perder.

Paola aperta a taça com força.

PAOLA Eu não vou deixar que seja a gente.

Yonã dá um meio sorriso — frio, profissional.

YONàEntão fica perto. Porque essa noite… (pausa) …vai virar caso de polícia.

A câmera fecha no rosto das duas — duas mulheres inteligentes, fortes, prontas para agir.

A música sobe.

O salão continua brilhando.

Mas agora, duas pessoas sabem que há algo profundamente errado.

CORTA PARA:

CENA 3 — COPACABANA PALACE — SALÃO PRINCIPAL — NOITE

SONOPLASTIA: o groove instrumental de “(I Can’t Get No) Satisfaction” cresce, pulsante, elétrico, como se o salão inteiro estivesse prestes a explodir.

O salão está tomado por tensão. As duas “Stellas” — Márcia e Stella — continuam o jogo de espelhos. Paola e Yonã observam, inquietas. Consuelo e Eriberto estão à beira do colapso. A imprensa fareja sangue.

E então…

AS LUZES DO SALÃO PISCAM.

Uma vez. Duas. Três.

Os convidados murmuram.

A música diminui.

Os garçons param.

A tensão vira pânico contido.

De repente—

TODAS AS LUZES SE APAGAM.

Um grito. Outro. Um copo quebrando.

O salão mergulha no escuro total.

E então—

UM TELÃO ACENDE.

Gigante. Branco. Implacável.

O salão inteiro vira-se para ele.

A imagem surge.

Granulada. Noturna. De câmera de segurança.

E então—

A VOZ DE ERIBERTO. Clara. Nítida. Inconfundível.

ERIBERTO (NO ÁUDIO) “Capitão Neves, isso precisa parecer um acidente. Nada que nos comprometa.”

O salão congela.

Consuelo leva a mão à boca.

Paola arregala os olhos.

Yonã se endireita, instintivamente policial.

Márcia e Stella se entreolham — uma surpresa verdadeira, outra perfeitamente fingida.

O vídeo continua.

ERIBERTO (NO ÁUDIO) “Paola não pode continuar. Ela é uma ameaça.”

Paola empalidece.

Os convidados começam a murmurar, chocados.

CONVIDADO 1 Meu Deus…

CONVIDADA 2 Ele mandou matar a própria irmã?

CONVIDADO 3 Isso é real?

Consuelo tenta se aproximar do telão, desesperada.

CONSUEL0 Desliga isso! DESLIGA AGORA!

Mas ninguém se move.

O vídeo segue.

Agora aparece Consuelo, no escritório.

CONSUEL0 (NO ÁUDIO) “Se a Stella abrir a boca… acabou pra todos nós.”

O salão vira um pandemônio silencioso.

Eriberto tenta correr até a mesa de som, mas dois seguranças do hotel o seguram — não por ordem, mas por instinto.

A música volta — baixa, tensa, como um coração prestes a infartar.

O vídeo termina.

A tela fica preta.

Silêncio absoluto.

E então—

AS LUZES VOLTAM.

E no centro do salão, diante de todos, está Márcia, ainda como Stella.

Ela dá um passo à frente.

Ergue o queixo.

E diz, com a voz calma, cortante, perfeita:

MÁRCIA (como “Stella”) Boa noite.

A câmera fecha no rosto dela.

O salão inteiro prende a respiração.

CORTA PARA:

 

CENA 4 — COPACABANA PALACE — SALÃO PRINCIPAL — NOITE / MADRUGADA

SONOPLASTIA: ruído de flashes, gritos, celulares vibrando, jornalistas correndo; música ambiente do hotel desaparece completamente — o caos toma conta.

O vídeo acabou de ser exibido no telão. As luzes voltaram. O salão está em colapso.

O CAOS COMEÇA

Gritos. Convidados correndo. Jornalistas invadindo o salão como uma onda.

FLASHES explodem por todos os lados.

JORNALISTA 1 Stella! É verdade que seu marido tentou matar sua irmã?

JORNALISTA 2 Consuelo, a senhora participou da conspiração?

JORNALISTA 3 Paola, você teme pela sua vida?

Consuelo tenta fugir, mas é cercada.

CONSUEL0 Saiam da minha frente! Isso é um absurdo! Eu vou processar todos vocês!

Eriberto tenta correr para a saída lateral, mas dois seguranças do hotel o bloqueiam — não por ordem, mas porque o caos é grande demais.

ERIBERTO Eu sou o governador! Me deixem passar!

Ninguém obedece.

PAOLA EM CHOQUE

Paola está imóvel, pálida, respirando rápido.

Yonã a segura pelo braço.

YONàFica comigo. Agora você não sai do meu lado.

PAOLA (baixa, trêmula) Ele… ele queria me matar.

YONàE agora todo mundo sabe.

A IMPRENSA AVANÇA

Os jornalistas se aproximam das duas “Stellas”.

JORNALISTA 4 Stella, quem divulgou o vídeo?

JORNALISTA 5 Stella, você confirma que seu marido planejou um assassinato?

As duas permanecem lado a lado.

Márcia — ainda como Stella — mantém o rosto sereno, impecável.

Stella — fingindo ser Márcia — observa tudo com frieza calculada.

É um teatro perfeito.

MÁRCIA ASSUME O CONTROLE

Ela ergue a mão. O salão silencia — não por respeito, mas por choque.

MÁRCIA (como “Stella”) Eu não vou responder nada agora. Mas garanto uma coisa: (pausa) A verdade está só começando a aparecer.

Os flashes explodem.

Stella olha para ela — surpresa, admirada, provocada.

CONSUELO SURTA

Consuelo avança, descontrolada.

CONSUEL0 Você destruiu a nossa família! Sua… sua… impostora!

O salão inteiro prende a respiração.

Márcia vira-se lentamente.

MÁRCIA (como “Stella”) Cuidado, Consuelo. Em noite de escândalo… (pausa, cortante) …quem grita demais costuma ser quem tem mais a esconder.

Consuelo desaba. Literalmente. Cai no chão, amparada por dois assessores.

ERIBERTO É DETIDO

Dois policiais entram no salão — chamados por alguém que viu o vídeo.

Eles se aproximam de Eriberto.

POLICIAL Governador Eriberto Albuquerque? O senhor está detido para averiguação.

O salão explode em gritos.

Eriberto tenta reagir.

ERIBERTO Isso é um absurdo! Eu sou vítima de uma armação!

Mas é algemado.

Os flashes iluminam o rosto dele — suado, desesperado, derrotado.

AS DUAS “STELLAS” FICAM SOZINHAS

No meio do caos, por um instante, o salão se abre.

E as duas ficam frente a frente.

Márcia. Stella.

O mundo desmorona ao redor.

Mas elas… elas estão calmas.

STELLA (como “Márcia”) Você começou isso.

MÁRCIA (como “Stella”) E você adorou continuar.

Stella sorri — um sorriso elegante, perigoso.

STELLA Acha mesmo que vai ganhar?

Márcia se inclina, quase tocando o rosto dela.

MÁRCIA Eu não jogo para ganhar. (pausa) Eu jogo para reinar.

A câmera fecha nos olhos das duas.

O caos continua ao fundo.

Mas ali, naquele instante, só existe o duelo.

CORTA PARA:

 

 

 

CENA 5 — RIO DE JANEIRO — EXT. MADRUGADA

SONOPLASTIA: clima, groove e atmosfera de “Rio 40 Graus” — Fernanda Abreu (somente o ritmo quente, urbano, pulsante — sem letra)

O Rio acorda antes do sol.

Mas não é um amanhecer comum. É um amanhecer em estado de choque.

A câmera abre no horizonte: o céu ainda escuro, mas já tingido de laranja. O mar quente, inquieto. O ar pesado, úmido, vibrando como se a cidade inteira estivesse suando nervosa.

O groove de “Rio 40 Graus” entra — aquele balanço quente, elétrico, urbano — criando o clima perfeito para o caos que se espalha.

A CIDADE FERVE

A câmera passeia por vários pontos do Rio, revelando a repercussão imediata do escândalo:

1. PRAIA DE COPACABANA — QUIOSQUES ABERTOS

Pessoas reunidas em volta de televisões pequenas. Todos assistindo ao vídeo que vazou do Copacabana Palace. Gritos, comentários, indignação.

BANHISTA 1 Isso é novela? Não… isso é real!

BANHISTA 2 O governador… mandando matar a própria irmã?

2. LAPA — BARES AINDA ABERTOS

Clientes bêbados, mas lúcidos o suficiente para entender o tamanho da bomba.

GARÇOM Eu falei que aquela família tinha coisa errada.

3. CENTRAL DO BRASIL — MADRUGADORES

Trabalhadores assistindo ao vídeo nos celulares. O burburinho cresce como um incêndio.

PASSAGEIRA E aquela mulher… a Stella… Tem duas?

4. REDAÇÕES DE JORNAL

Telefones tocando sem parar. Editores gritando. Repórteres correndo.

EDITOR Quero tudo! Imagens, depoimentos, histórico, escândalos antigos! Hoje ninguém dorme!

5. PALÁCIO DAS LARANJEIRAS — FACHADA

Viaturas chegando. Jornalistas se amontoando. Câmeras ao vivo.

O Rio inteiro está acordado. O Brasil inteiro está acordado.

CORTE PARA: COPACABANA PALACE — FACHADA

O hotel ainda iluminado. Movimentação intensa. Polícia, imprensa, convidados tentando sair.

O groove de “Rio 40 Graus” cresce, quente, vibrante, como se a cidade estivesse respirando rápido.

NARRAÇÃO VISUAL (SEM VOZ):

A câmera sobe, revelando o Rio de Janeiro fervendo, pulsando, reagindo.

O escândalo não é mais um segredo. É um fenômeno. É um terremoto político, social e pessoal.

E no centro de tudo…

duas mulheres idênticas. duas verdades. duas mentiras. um país inteiro assistindo.

CORTE SECO.

CENA 6 — DELEGACIA — SALA DE INTERROGATÓRIO — MADRUGADA

(continuação direta do caos no Copacabana Palace)

SONOPLASTIA: ventilador velho girando, lâmpada fluorescente zumbindo, silêncio tenso de madrugada na delegacia.

A sala é fria, iluminada por uma única lâmpada pendurada. Na mesa de metal, Eriberto, ainda com o terno amarrotado do coquetel, algemado, suando, tentando manter a postura de autoridade que já não existe.

A porta se abre.

Yonã entra.

Sem pressa. Sem medo. Sem cerimônia.

Ela fecha a porta atrás de si. Coloca uma pasta grossa sobre a mesa. Senta-se.

E não diz nada.

Eriberto tenta quebrar o silêncio.

ERIBERTO Isso é um absurdo. Eu exijo falar com meu advogado.

Yonã cruza as mãos sobre a mesa.

YONàEle está vindo. Mas até lá… (pausa) …você vai falar comigo.

Eriberto tenta rir, mas a voz falha.

ERIBERTO Eu não tenho nada a dizer.

Yonã abre a pasta. Tira uma foto. Empurra para ele.

É um frame do vídeo exibido no Copacabana Palace. A imagem dele, clara, nítida, conspirando com Capitão Neves.

YONàEntão eu falo. Você escuta.

Eriberto engole seco.

YONà(olhando direto nos olhos dele) Você planejou a morte da sua irmã.

ERIBERTO Isso é mentira!

Yonã não se altera.

Ela pega outra foto. Dessa vez, uma imagem de Paola no hospital, meses atrás.

YONàSua irmã quase morreu. E agora sabemos por quê.

Eriberto tenta manter a pose.

ERIBERTO Eu… eu estava protegendo a minha família.

Yonã se inclina para frente.

YONàProtegendo? Ou eliminando quem podia derrubar você?

Silêncio.

Eriberto desvia o olhar.

Yonã percebe. Ela aperta.

YONàVocê não contava que alguém gravasse. Não contava que o vídeo vazasse. E muito menos… (pausa) …que duas mulheres idênticas fossem expor tudo no meio do Copacabana Palace.

Eriberto fecha os olhos, exausto.

ERIBERTO Aquela mulher… (pausa) …não é a Stella.

Yonã sorri de canto.

YONàEu sei. E você também sabe. Mas o Brasil ainda não.

Eriberto abre os olhos, assustado.

YONàE adivinha? (pausa) Eu não estou aqui para te proteger. Estou aqui para descobrir quem você tentou matar… …e quem mais você está tentando enganar.

Eriberto respira fundo, derrotado.

ERIBERTO Eu quero meu advogado.

Yonã fecha a pasta.

Levanta-se.

YONàPeça o que quiser. Mas saiba de uma coisa, governador: (pausa, firme) A partir de hoje… …você não manda em mais nada.

Ela bate na porta.

O policial abre.

Yonã sai sem olhar para trás.

Eriberto fica sozinho, respirando rápido, percebendo — talvez pela primeira vez — que perdeu o controle.

CORTA PARA:

CENA 7 — DELEGACIA — SALA DE INTERROGATÓRIO — MADRUGADA

A QUEDA DE CONSUEL0

SONOPLASTIA: silêncio pesado de madrugada, um ventilador velho girando, passos ecoando no corredor.

A porta da sala de interrogatório se abre com força.

Consuelo entra empurrada por uma policial. Ela está descabelada, suada, o tailleur amarrotado — a imagem perfeita de uma rainha destronada.

Na mesa, Yonã já a espera. Postura impecável. Olhar afiado. Zero paciência.

A policial fecha a porta. Consuelo tenta recuperar a compostura, mas a voz treme.

CONSUEL0 Eu exijo respeito. Eu sou a mãe do governador.

Yonã cruza as mãos sobre a mesa, calma como um bisturi.

YONàE eu sou a delegada responsável pela investigação que pode colocar seu filho na cadeia. Sente-se.

Consuelo senta. Não por obediência — por medo.

Yonã abre uma pasta. Tira uma foto. Empurra para Consuelo.

É o frame do vídeo: Consuelo no escritório, dizendo claramente:

“Se a Stella abrir a boca… acabou pra todos nós.”

Consuelo fecha os olhos, como se pudesse apagar a imagem.

CONSUEL0 Isso foi tirado de contexto.

Yonã sorri — um sorriso pequeno, perigoso.

YONàEntão me dê o contexto.

Consuelo engole seco.

CONSUEL0 Eu… eu estava nervosa. A Stella estava… instável. Eu só queria proteger a família.

Yonã inclina a cabeça, estudando cada microgesto.

YONàProteger… (pausa) …ou silenciar?

Consuelo perde o ar.

CONSUEL0 Você não sabe do que está falando.

Yonã abre outra foto. Dessa vez, um print de mensagens entre Consuelo e Capitão Neves.

YONàEu sei exatamente do que estou falando. E você também.

Consuelo tenta manter a postura, mas a máscara racha.

CONSUEL0 Eu… eu só queria evitar um escândalo.

YONàE conseguiu o oposto.

Silêncio.

Yonã se inclina para frente, firme, implacável.

YONàConsuelo… (pausa) …você sabia que seu filho planejava matar a própria irmã?

Consuelo treme. Os olhos enchem de lágrimas — não de culpa, mas de pânico.

CONSUEL0 Eu… (pausa longa) …eu não sabia que ele ia tão longe.

Yonã não pisca.

YONàMas sabia que ele ia. E não fez nada.

Consuelo desaba na cadeira. O choro vem — silencioso, feio, desesperado.

CONSUEL0 Eu só queria proteger o nome da família… Eu só queria… (pausa, soluçando) …manter tudo como era.

Yonã fecha a pasta.

Levanta-se.

YONàNada vai ser como era. Nem para você. Nem para ele. Nem para ninguém.

Ela bate na porta.

A policial entra.

YONàLeve a senhora Consuelo para a sala de espera. Ela vai prestar depoimento formal ao amanhecer.

Consuelo é levada, arrastando os pés, destruída.

Yonã fica sozinha na sala. Respira fundo. Sabe que a noite está longe de acabar.

CORTA PARA:

CENA 8 — COPACABANA PALACE — CORREDOR PRIVATIVO — MADRUGADA

A DESCOBERTA DE PAOLA

SONOPLASTIA: clima instrumental quente e urbano de “Rio 40 Graus” — Fernanda Abreu (somente o groove — pulsante, acelerado, como o coração de Paola)

O corredor privativo do Copacabana Palace está quase vazio. A madrugada avança, mas o caos do salão ainda ecoa ao longe — gritos, flashes, jornalistas, polícia.

Paola, pálida, ainda em choque, é escoltada por Yonã.

As duas caminham rápido.

Paola respira fundo, tentando processar tudo: o vídeo, a tentativa de assassinato, a queda de Eriberto, o escândalo.

YONà(baixa, firme) A gente precisa te tirar daqui. Agora.

Paola assente, mas algo a incomoda. Algo que ela viu. Algo que ela sentiu.

Elas viram a esquina do corredor.

E então—

Paola para.

Seca. Bruscamente.

Yonã dá mais dois passos antes de perceber.

YONàPaola?

Paola está imóvel, olhando para frente.

Yonã segue o olhar dela.

E vê.

A CENA QUE ENTREGA TUDO

Mais adiante, no fim do corredor, duas mulheres conversam baixinho.

Márcia, ainda como “Stella”. Stella, fingindo ser “Márcia”.

As duas estão sozinhas. Sem plateia. Sem jornalistas. Sem teatro.

E é aí que Paola vê.

Vê o corpo. Vê o gesto. Vê o olhar.

Vê a verdade.

Márcia — a falsa Stella — fala com uma postura que não é da Stella. Stella — fingindo ser Márcia — responde com uma frieza que não é da Márcia.

É um jogo. Um jogo que Paola nunca imaginou existir.

A música cresce — quente, tensa, elétrica.

Paola leva a mão à boca.

PAOLA (um sussurro, horrorizada) Meu Deus… (pausa) …elas trocaram de lugar.

Yonã olha para Paola — e entende.

YONàVocê percebeu.

Paola dá um passo para trás, como se o chão tivesse sumido.

PAOLA A Márcia… (pausa, sem ar) …está se passando pela Stella.

Yonã segura o braço dela.

YONàE a Stella está deixando.

Paola encara as duas ao longe — duas mulheres idênticas, duas máscaras, duas mentiras.

PAOLA (baixa, devastada) Eu não sei mais quem é quem.

Yonã aperta o braço dela, firme.

YONàEu sei. E vou descobrir. Mas agora… (pausa) …você precisa sair daqui viva.

Paola respira fundo, ainda olhando para as duas.

Márcia e Stella continuam conversando — cúmplices, rivais, espelhos.

Paola fecha os olhos, tomada por uma certeza terrível:

PAOLA (baixa, quase sem voz) A Márcia… …virou a Stella.

A câmera fecha no rosto dela — choque, medo, incredulidade.

A música atinge o auge.

CORTA PARA:

FIM

 

 

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