A OUTRA
CAPÍTULO 9
UMA NOVELA DE TAÍS GRIMALDI
CENA 1. APARTAMENTO DE CELESTE. SALA DE ESTAR. INT. NOITE
SONOPLASTIA — “LABIRINTO” – PAULO HENRIQUE - INSTRUMENTAL
Celeste encara Márcia, impassível.
CELESTE -Bruno está embriagado. Culpado por não ter conseguido salvar o seu bebê.
Bruno explode. Parte para cima de Celeste com raiva.
BRUNO - Sua cretina!
Márcia corre até os dois, tentando proteger a mãe. Celeste recua, pega um vaso de decoração e — num movimento rápido, brutal — acerta em cheio a cabeça de Márcia.
Márcia desaba no chão. Silêncio. Celeste olha para ela com frieza e depois encara Bruno.
CELESTE - Ninguém — nem você — vai mudar a narrativa que eu criei.
Ela tira do bolso um daqueles celulares antigos, enormes. Disca com precisão.
CELESTE - (ao telefone) Chegue aqui em dois minutos.
Ela desliga sem esperar resposta.
Celeste se aproxima de Bruno, agora paralisado. Seu tom é mais baixo. Quase um sussurro hipnótico.
CELESTE - Você aceitou a troca.
INSERT
HOSPITAL DE PARATY. MATERNIDADE. INT. NOITE
SONOPLASTIA – “SEE YOU NEXT WEDNESDAY” – GAVIN SALKELD
Uma composição etérea, melancólica — como um sonho ruim de onde não se acorda.
A chuva cai com força. Gotas grossas escorrem pelas janelas embaçadas. Dentro da maternidade, o mundo está suspenso.
Celeste está sentada em uma poltrona bege, com o bebê de Márcia nos braços. Observa a criança com ternura artificial — como quem avalia uma peça rara, ou posiciona algo num tabuleiro.
Mas seus olhos estão fixos em Bruno — do outro lado do vidro.
Bruno segura o bebê recém-nascido de Stella. De repente, o rosto dele se transforma.
Primeiro, um franzir de testa. Depois, o terror — silencioso.
O choro que não vem. A ausência do som da vida. O pavor.
BRUNO - (baixo) Não(pausa) não, não...
Ele deita o bebê sobre uma bancada improvisada. As mãos tremem. Tenta reanimar. Uma, duas compressões. A criança não responde.
A música cresce como um réquiem eletrônico. Só se ouve a chuva.
BRUNO - (sufocado) Celeste...
Ela se levanta. Cruza a sala com uma calma perturbadora. Vê o bebê imóvel. Vê o pavor no rosto de Bruno.
BRUNO - Ele morreu.
O tempo para.
Celeste olha para o corpo sem vida. Depois, encara o bebê nos próprios braços — vivo, chorando baixinho.
Ela o aperta contra o peito. Há cálculo no gesto. Seus olhos brilham — não de dor, mas de uma fúria primitiva, implacável.
BRUNO - (tentando reagir) Eu vou chamar alguém. Tem que registrar...
Ela o agarra pelo pulso. As unhas afundam na pele dele.
CELESTE - (olhos nos olhos) Não.
BRUNO - Como assim, “não”?
Ela se aproxima. O bebê ainda junto ao peito. Seus olhos são abismos.
CELESTE - Vamos trocar os bebês.
BRUNO - (pasmado) Celeste...
CELESTE - Ninguém precisa saber. O bebê da Márcia vai ser o filho da Stella.E o da Stella vai descansar.Como anjo.Como mártir. Como segredo.
Bruno dá um passo para trás. Como se ela fosse algo que não se nomeia.
Ele treme. Mas não reage.
FIM INSERT
O silêncio pesa no ar. Celeste olha para Bruno com um sorriso frio, quase um aviso disfarçado.
Celeste - (voz suave, letal) Você fez isso por amor à Stella, Bruno. Você sabe o quanto essa criança era importante para o casamento dela, para a imagem, para o futuro. Depois que ela perdeu o útero, saber que a filha morreu não era uma opção. Não naquele momento.
Bruno, no chão, encara o vazio. Sua respiração é irregular, a culpa apertando-lhe o peito como um punhal. Márcia permanece imóvel, a cabeça ensanguentada repousando sobre o carpete caro, um retrato trágico de inocência destruída.
A porta se abre. Stella entra apressada, seus passos ecoando pelo apartamento. Ela para o olhar pousa em Bruno no chão, depois em Márcia caída. O tempo parece desacelerar.
Stella fixa os olhos na mãe, a voz trêmula, buscando respostas que não pode suportar.
STELLA - (com voz cortante, quase um sussurro) O que você não me contou? O que eu nunca poderia saber?
Celeste avança, imponente, deixando a gravata do passado pender, deixando a máscara de mãe perfeita cair, revelando a serpente elegante por trás do rosto de seda.
CELESTE - (frívola, como quem entrega uma sentença) Nada que seja importante, minha filha. Nada que vá abalar o que você construiu até aqui.
Bruno levanta a voz, tropeçando nas palavras, a embriaguez infiltrando-se como veneno.
BRUNO - (gaguejando, voz rouca, direta) O bebê (pausa) o bebê da Stella morreu. Morreu naquela noite. E a sua mãe pediu para trocar. Ela pediu para trocar com o da Márcia.
O mundo de Stella ruge em silêncio. Seus olhos se arregalam. A face pálida perde a cor em segundos.
Ela tenta se manter firme, mas a verdade a destrói como uma onda brutal. O corpo cede, ela cai lentamente, como uma estátua quebrada.
O baque suave do corpo no chão ressoa como um trovão. O apartamento, antes tão repleto de aparências, torna-se um túmulo.
Celeste se aproxima, em passos lentos, calculados — a predadora perto da presa. Quer amparar, controlar, dominar.
STELLA - (gritando, voz trêmula e quebrada) Não (PAUSA) Não! Não pode ser! Por quê? Por que você fez isso?
Celeste estende a mão, tentando um toque, uma falsa ternura.
CELESTE - (voz sussurrada, quase um cântico) Porque tudo que importa é o poder e quem sobrevive para contar a história.
A câmera fecha nos olhos de Stella, marejados, que refletem dor, traição e o abismo de um mundo desfeito.
A trilha instrumental sobe, fria, cortante, como a lâmina que corta a pele.
CELESTE - (se aproximando lentamente, voz firme, porém quase sussurrada)
Eu salvei a sua filha, Stella. Eu salvei o que sobrou da sua dignidade. Imagine a imprensa, imagine Eriberto, imagine Laurinha, com dois filhos do mesmo homem. Você não suportaria mais uma humilhação.
STELLA - (enrijecida, quase sem piscar) Você acha que me protegeu?
Ela dá um passo para trás. Os olhos fixos nos da mãe.
STELLA (cont.) Você matou, mãe. Matou o que havia de verdadeiro em mim.
Ela gira nos calcanhares, vai até um móvel antigo no canto da sala — de madeira escura, entalhado, quase barroco. Abre a porta com brusquidão. Lá dentro, uma caixa de veludo carmim. Ela a tira com cuidado quase reverente.
Abre.
Dentro, um revólver SMITH & WESSON .32 — modelo Hand Ejector, anos 1980. O brilho metálico é cruel, gélido, definitivo.
STELLA (sem olhar para ela, carregando o revólver) Você sempre me disse que uma mulher de verdade protege o que é dela. Hoje, eu decido quem morre primeiro.
Ela ergue o revólver. A mão firme. O braço estendido. O olhar focado.
BRUNO - (trôpego, rindo amargo) Vai acabar com essa farsa com sangue agora, é? Que beleza. Isso sim é um final digno da sua mãe.
CELESTE - Você não vai fazer isso. Eu sou sua mãe.
STELLA - (rígida, gélida) Você é o meu trauma com nome e sobrenome.
O dedo no gatilho. A trilha musical atinge um ápice minimalista — quase inaudível, apenas o som de respiração pesada, o clique do revólver sendo armado.
CLOSE no revólver. CLOSE em Celeste. CLOSE em Bruno. CLOSE em Márcia, desacordada. CLOSE no rosto de Stella.
O silêncio se estende, opressor.
STELLA – Digam (sorri) quem merece morrer primeiro?
A tensão é sufocante. O tempo parece retido no ar.
CORTE SÚBITO — Celeste avança.
CORTE RÁPIDO — A arma escorrega brevemente das mãos de Stella, num estalo seco.
As duas se engalfinham com uma fúria primitiva. É uma dança de ódio e dor.
A câmera segue em PLANO-SEQUÊNCIA, hipnótica.
Elas derrubam uma mesinha de centro com cristal esculpido. Um quadro sai da parede.
O tapete se torce sob os corpos que rolam.
A luta se estende pelo corredor, rasgando o tecido da casa e da dignidade.
Celeste arranha, Stella morde, ambas lutam não apenas pela arma, mas por anos de rancores silenciados.
CORTE — No hall de entrada.
Stella se desequilibra e bate com o rosto na quina do batente — um filete de sangue escorre pela testa.
Celeste está com o vestido rasgado na altura do ombro. Uma mecha de cabelo desgrenhada cobre o olho.
STELLA - (gritando, entre soluços e ódio) Você destruiu minha vida! Sua desgraçada!
ENTÃO — UM DISPARO.
Um estampido seco. O mundo congela.
Celeste cambaleia para trás. Um fio de sangue começa a descer pelo abdômen.
CLOSE na seda de sua blusa — a mancha vermelha se espalha como tinta em papel de arroz.
STELLA - (em choque, a arma cai de suas mãos) Celeste? Meu Deus, o que eu fiz?
CELESTE - (ofegante, mas com os olhos acesos como carvões) Você não vai terminar sua história assim. Com pena.
Ela se ajoelha. Cada movimento é uma dança lenta entre o sofrimento e a intenção.
Arrasta-se até o sofá onde Márcia dorme.
Suas mãos trêmulas alcançam o lóbulo da filha.
Ela arranca o brinco.
Um gesto seco, quase cerimonial. O sangue pinga. Um fio escorre por sua mão.
Depois — Ela agarra a mão de Márcia e pressiona contra a arma caída no tapete, deixando digitais onde deve. Um trabalho meticuloso, como uma artista do caos.
STELLA - (tom quebrado, horrorizada) O que você está fazendo?! Isso é monstruoso!
CELESTE - (fria, irônica, com um sorriso vencido) Uma mãe sempre protege sua favorita!
Ela se vira lentamente. O sangue escorre por entre os dedos. Mira Bruno.
CLOSE nos olhos dele — súplica, culpa, rendição.
CELESTE
(baixa, amarga, lenta) Você sempre foi um peso morto... Agora está... finalmente... morto.
DISPARO.
Bruno cai de joelhos — um suspiro sem som. O corpo tomba como um saco vazio.
STELLA - (grita, rasgada por dentro) NÃÃÃO!
Ela se arrasta até ele. A câmera rodopia em plano alto, como um Deus indiferente observando o fim dos mortais.
CELESTE recua, cambaleante.
SONOPLASTIA — Início de "Un bel dì vedremo", da ópera Madama Butterfly.
Violinos etéreos, trágicos.
Uma morte em câmera lenta.
Celeste sorri. Um sorriso de paz doente.
CELESTE - (olhos fixos em Stella) Sempre te amei mais, Stella.
Ela se ergue, sangue ainda vertendo da barriga.
A câmera a acompanha em PLANO LENTO enquanto atravessa a sala.
Abre as portas antigas da varanda com as costas — uma coreografia fúnebre.
STELLA - (gritando, lágrimas nos olhos) CELESTE, NÃO! PELO AMOR DE DEUS!
CELESTE - (sem virar o rosto) Adeus, Stella.
Ela se lança.
PLANO CONTRAPLONGÉ —
O corpo de Celeste cai em câmera lenta.
O vestido esvoaça.
A música atinge seu auge.
Celeste despenca sobre um FUSCA AMARELO antigo.
O vidro estilhaça. O som do alarme rasga o silêncio.
STELLA na sacada, os braços estendidos, o rosto coberto de lágrimas, o horror congelado.
A CÂMERA SE AFASTA, vagarosamente, da sacada, da casa, da tragédia.
Ao fundo, a voz da soprano em seu clímax, como um lamento pelos pecados do mundo.
CORTA PARA:
CENA 2. APARTAMENTO DE CELESTE. SALA DE ESTAR. INT. NOITE
SONOPLASTIA — “DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ” – ELIS REGINA
A voz de Elis entra suave, melancólica, sobre a cena de horror e decadência. A trilha acompanha a coreografia final de um crime perfeitamente imperfeito.
CLOSE no sangue escorrendo do corpo de Bruno, ainda quente. A arma tombada no chão, fumegando.
STELLA (em choque, olhos arregalados, oscilando entre o horror e o transe, baixo, para si) Foi isso o que você sempre quis, não foi? (sussurra) A verdade é uma dama cruel.
PLANO GERAL — A sala está devastada, cortinas esvoaçando, sangue nas paredes, móveis tombados.
Stella vai até Bruno. Ajoelha-se diante dele.
STELLA - (sorri com dor) Cachorro, você nunca prestou. Mas me entendeu como ninguém.
Ela o beija, desesperadamente. Um último beijo. Longo, desesperado, mórbido. Os olhos dele se fecham. Definitivamente.
Close no rosto dela, agora vazio.
Silêncio absoluto. A música de Elis some.
TRILHA OFF. SOM DO MUNDO REAL.
SIRENES.
BATER DE PORTAS.
GRITOS DE “POLÍCIA! ABAIXA A ARMA!”
A câmera acompanha a entrada dos policiais. Armados, cautelosos, olhos chocados diante da cena.
MÁRCIA completamente desorientada, começa a acordar no sofá. Completamente dopada, olhos pesados, tentando entender o caos.
Um dos policiais grita:
POLICIAL - Ela tava com a arma! É ela! É ELA!
Marcia tenta se levantar, mas dois policiais já a algemam. Ela grita, sem voz, sem força:
MÁRCIA - Eu não...
CLOSE no rosto de Stella. Fria. Parada. Estática. Olhos secos.
Ela observa em silêncio. Não diz uma palavra.
CÂMERA LENTA — A imagem congela no momento em que Marcia é empurrada para fora da sala, algemada, em desespero. Stella observa como quem contempla uma obra finalizada.
SONOPLASTIA – RETORNO DE “DOIS PRA LÁ, DOIS PRA CÁ” – INSTRUMENTAL SOMENTE, DISTORCIDA, LENTA, FÚNEBRE.
CORTE PARA:
FIM
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