A OUTRA
CAPÍTULO 13
UMA NOVELA DE TAÍS GRIMALDI
CENA 1. APARTAMENTO DOS FERRAZ DINIZ. SALA DE ESTAR. INT. DIA
Um leve piano clássico ao fundo. Luz natural entra pelas grandes janelas. O ambiente é sofisticado, mas com toques pessoais — livros, quadros de arte contemporânea e um vaso de orquídeas frescas.
Giuseppe, elegante mesmo em roupa casual, entra na sala ao lado de Marcelo. Ambos seguram xícaras de café. Marcelo sorri, até ver quem está ali.
No sofá, estão Carolina e sua mãe, Ana Maria. Ambas bem-vestidas. Ana Maria tem um ar antiquado, um perfume forte e uma expressão julgadora.
ANA MARIA - (sorrindo, falsa simpatia) Ué (PAUSA) Esse é o filho? (olha Marcelo de cima a baixo, com desdém contido) Como tá moderno.
CAROLINA - (eleva as sobrancelhas, rindo debochada) Ele tem uma sensibilidade, mãe. Uma vibe assim “artística”.
GIUSEPPE - (olha fixo para Carolina) Não começa.
ANA MARIA - Não, imagina. Cada um com sua escolha. Só fico com pena de quem acha que pode criar um homem sem ensinar a ser homem.
MARCELO - (engole seco, disfarçando o golpe) Eu vou sair. Tenho treino.
CAROLINA - (ri, seca) Treino do quê? Maquiagem?
GIUSEPPE - (levanta-se, firme) CHEGA.
Marcelo sai sem olhar pra trás. A porta bate com força. Silêncio. O som do piano sobe levemente.
GIUSEPPE -(encara Carolina) Você é pior do que sua mãe. Ela ao menos tem a desculpa da ignorância. Você não. Você foi criada em liberdade, com acesso, com afeto.
ANA MARIA - Não se pode mais brincar? Agora tudo é preconceito…
GIUSEPPE - Não é brincadeira quando machuca alguém. (pausa) Vocês duas acham que têm moral. Mas o que têm é medo. Medo do que não controlam. Medo de um menino que, apesar de tudo, é mais íntegro do que vocês duas juntas.
CAROLINA - Nossa, exagero. Foi só uma piada.
GIUSEPPE - Então aprende: nem toda piada é engraçada. Algumas são só cruéis.
Silêncio. Ana Maria mexe o chá, tentando disfarçar o desconforto. Carolina cruza os braços, sem responder.
GIUSEPPE - (indo em direção à porta) Vou atrás do meu filho. (olha para Carolina, dolorido) E que sorte a dele de não ter saído a você.
CORTE PARA:
CENA 2 – PALÁCIO DAS LARANJEIRAS. SUÍTE DE STELLA. INT. DIA.
A suíte é ampla, silenciosa, envolta numa luz dourada filtrada por cortinas translúcidas. O Rio de Janeiro se estende além das janelas. Há algo de imperial no ar. Sobre a cama king-size, lençóis de linho, champanhe num balde de prata, um laptop aberto com múltiplas abas de notícias.
Selena de vestido justo e batom vermelho fatal, caminha pelo quarto com seu celular na mão. Fala com calma, precisão e crueldade. Stella, de robe de seda azul petróleo, a observa, recostada na poltrona de veludo. A música “Erotica” – Madonna começa a tocar baixinho, como uma promessa.
SELENA - (tirando os óculos escuros) Está tudo certo. Contratei aquela influencer decadente que adora se meter em confusão. Ela vai provocar a Márcia no camarote da final. Vai filmar tudo. Briga, tapas, polícia. A imprensa vai amar.
STELLA - (sem reagir, mas atenta) E se ela se recusar?
SELENA - Ela precisa de dinheiro. E fama. Essas duas coisas fazem qualquer mulher vender a própria mãe. E se não bastar, eu tenho vídeos. Ela vai obedecer.
STELLA - (frente ao espelho, com sarcasmo) Como a gente fazia com as domésticas da minha avó…
Selena sorri. Uma pausa.
SELENA - (voltando-se para Stella)E tem mais. Já está em andamento a operação “Fantoche”. Nossa equipe vai criar vídeos da Márcia dançando nua, xingando o povo, falando que pobre fede. Tudo deep fake. Realista até demais. Os robôs já estão preparados pra espalhar nas redes. A imprensa? Vai cair que nem patinho.
STELLA - (ri baixo) Você é um gênio. Um monstro de saia justa.
SELENA - (aproxima-se) Não esquece do que te dou quando tá com tesão.
Stella sorri com superioridade. Tira o robe lentamente. Está nua por baixo.
STELLA - (sussurra) Veneno Doce
Selena se aproxima ainda mais, segura o rosto dela com firmeza.
SELENA - Sim, minha cobra charmosa
STELLA - (sussurra de volta) Então derrama dentro de mim
Elas se beijam com fúria, enquanto “Erotica” atinge o refrão. A câmera gira lentamente ao redor das duas, enquanto caem sobre os lençóis, como rainhas conspiradoras do Império Romano moderno. O close final é no laptop: um dos vídeos deepfake começa a renderizar, com a imagem de Márcia sendo manipulada digitalmente.
CORTA PARA:
CENA 3. PALÁCIO DAS LARANJEIRAS. SALA DE ESTAR. INT. DIA.
A câmera passeia pela imponência da casa. Mármores, arranjos de flores nobres, luz natural filtrada por cortinas de linho. Uma criada acompanha Zilda Maria até a sala. Ela observa o ambiente com um misto de nostalgia e julgamento. Consuelo entra com um sorriso social.
CONSUELO - (educada, mas tensa) Zilda Maria, não achei que voltaríamos a nos ver tão cedo. Não depois do que houve ontem.
ZILDA MARIA - (com frieza contida) E mesmo assim me convidaram. O destino é curioso, Consuelo.
Consuelo faz um gesto para que ela se sente. As duas mantêm as bolsas nos colos, como num duelo de damas antigas. A tensão é silenciosa por um momento.
CONSUELO - (serena) Imagino que não tenha vindo para tomar chá.
ZILDA MARIA - (diretamente) Recebi uma ligação esta manhã. Do consulado em Frankfurt. Paola está viva.
A reação de Consuelo é instantânea: o sangue abandona seu rosto. Ela tenta manter a compostura.
CONSUELO - Isso é impossível.
ZILDA MARIA - Improvável. Mas aconteceu. E ela está voltando para o Brasil.
CONSUELO - (alterada, mas contida) Isso não faz sentido. Eriberto (PAUSA) Eriberto enterrou essa irmã há trinta anos.
ZILDA MARIA -Enterrou uma versão conveniente. A verdade é que Paola escolheu desaparecer. Viver com aquele alemão, uma escolha pessoal, sim, mas politicamente indigesta.
Consuelo se levanta, nervosa. Anda até o carrinho de bebidas, serve-se de um gim puro. Bebe em silêncio. Depois encara Zilda.
CONSUELO - Você sabe o que isso significa, não sabe? Se essa história vem à tona o partido vai sangrar. E Eriberto junto.
ZILDA MARIA - Ele é forte. Sobreviveu a escândalos maiores. Mas esse? Esse tem nome, rosto e sotaque alemão.
CONSUELO - (pesando palavras) E você veio aqui por quê? Para anunciar o fim da família Albuquerque de Medeiros? Ou para negociar?
ZILDA MARIA - Nem uma coisa, nem outra. Eu vim por respeito. E por amor à verdade. Paola vai falar. E vocês vão ter que decidir se recebem ela como irmã e filha ou como inimiga.
Silêncio tenso. Consuelo trinca os dentes. A música ambiente clássica toca ao fundo — algo de Mahler. O mundo parece desabar silenciosamente sobre Consuelo. Ela ajeita o colar de pérolas e encara Zilda com dureza:
CONSUELO - Ela não vai abrir essa boca. Nem que eu tenha que trancá-la a sete chaves.
ZILDA MARIA - (levantando-se) Boa sorte, Consuelo. Vai precisar.
Zilda sai. Consuelo permanece sozinha, ofegante, o copo trêmulo na mão. Corta para um quadro antigo de Paola jovem, semiapagado pelo tempo.
CORTA PARA:
CENA 4. TENNIS ROUTE – CENTRO DE TREINAMENTO DE TÊNIS. QUADRA PRINCIPAL. EXT. DIA
A tarde está quente. Sol firme no céu do Rio. O som das raquetadas ritma o ar pesado. A quadra principal está em pleno uso — um treino tenso entre Sibeli, jovem promessa do tênis, e seu técnico. Há espectadores ao redor. Entre eles, surge Laurinha, elegantíssima, mas com os olhos cobertos por óculos escuros Chanel. O salto fino afunda levemente no saibro enquanto ela se aproxima do gradil.
Laurinha observa. O olhar fixo na filha. Não há ternura: há vigilância. Crítica. Atrás dela, discretamente, Paula Lee, consultora de imagem e relações públicas influente no meio esportivo, se aproxima com um sorriso social no rosto.
PAULA LEE - (confiante, mas polida) Que bom te ver por aqui, Laurinha. Não é todo dia que a gente vê uma Wangnan interessada em esporte ao sol.
LAURINHA— Só estou aqui porque a minha filha me obriga a isso. (curta pausa) O que uma mãe não faz pra evitar um novo escândalo?
Sibeli erra um saque e joga a raquete no chão. Laurinha fecha a cara. Paula tenta quebrar o gelo.
PAULA LEE - (olhando para a quadra, em tom leve) A Sibeli tem talento. Um estilo agressivo, meio fora de moda, mas isso pode ser um charme. Você sabe, o público gosta de personalidade.
LAURINHA — O público gosta de ver alguém desmoronar. Ainda mais quando o sobrenome carrega mais história do que glória.
Paula sorri, desconfortável. Espia Laurinha por trás dos óculos escuros.
PAULA LEE— Eu soube de uns rumores, sabe (pausa) Uma história envolvendo você, o patrocínio da R2 e aquela briga com o técnico espanhol da Sibeli. Verdade ou fofoca?
Laurinha se vira devagar para Paula. A expressão é fria como gelo suíço.
LAURINHA — É melhor você não saber nada sobre isso, Paula. Sério.
(se inclina, sussurra como quem avisa e ameaça ao mesmo tempo)
Porque se souber, vai parar num labirinto pior que o que você viveu em 98. E, francamente, não sei se você sai viva de outro.
Paula gela. Toca levemente na corrente no pescoço, um tique nervoso. Laurinha volta a olhar para a quadra. Sibeli acerta uma jogada brilhante. Alguns aplaudem. Laurinha não. Apenas franze os lábios.
LAURINHA - (sem emoção) Parece que, pelo menos no tênis, ela aprendeu a esconder a vergonha. Pena que não foi comigo.
Paula engole seco. Ao fundo, o som da bolinha ecoa. Close nos olhos de Laurinha — duros, amargos. Um mistério profundo ali mora.
CORTA PARA:
CENA 5. ORLA DE COPACABANA. EXT. DIA
A brisa leve do mar sopra. A câmera passeia pela calçada de pedras portuguesas em ondas, turistas se misturam com cariocas em trajes leves. Ao fundo, o Pão de Açúcar emoldura o céu límpido.
Sibeli, tênis nos pés, boné cobrindo parte do rosto, caminha ao lado de Roberto, irmão mais velho, arquiteto, discreto, sensível. Os dois conversam em tom baixo. Ela parece exausta, pressionada.
SIBELI - (seca, tensa) Se eu perder, acabou. Minha carreira, o patrocínio, a convocação pros torneios. E sabe o que é pior? A mãe vai dizer que eu nunca fui boa o suficiente.
ROBERTO - (para, encara a irmã) Você tá ouvindo a si mesma? É só uma partida. O que tá em jogo é sua sanidade, Sibeli, não um troféu.
SIBELI - Você não entende. Nunca foi a favorita. Nunca teve uma mãe que apostou tudo num placar.
Roberto a abraça com carinho. Um momento de ternura entre irmãos. Um silêncio. Ele olha para o outro lado da rua e avista Marcelo, distraído, com fones no ouvido, atravessando a faixa de pedestre sem perceber que o sinal vai abrir.
ROBERTO - (urgente) Marcelo!
Ele corre. Um carro acelera. Um freio brusco. Roberto agarra Marcelo e o puxa para trás segundos antes do impacto. Marcelo cai nos braços de Roberto. Olhares se cruzam.
MARCELO - (surpreso, ofegante) Você me salvou…
ROBERTO - (rindo nervoso) Você devia olhar pra frente e não pro celular. Ainda mais em Copacabana.
Um segundo. Os dois se olham. Uma tensão elétrica, sutil, mas poderosa. Ambos sabem. Sibeli observa à distância, compreende sem dizer nada. Com delicadeza, sorri. A música "Olha" – Maria Bethânia começa suave, crescendo com a emoção.
Corte para um travelling em câmera lenta: Marcelo e Roberto caminhando lado a lado, como quem acabou de abrir uma porta para algo novo. Ao fundo, o mar dança em prata. O sol banha a calçada com dourado e promessas.
CORTE PARA:
CENA 6. PALÁCIO GUANABARA. ESCRITÓRIO DO GOVERNADOR. INT. DIA
SONOPLASTIA – “PELO CAMINHO” – ALBERTO ROSENBLIT
O ambiente é austero, clássico, mas de um luxo discretamente suntuoso. O sol da tarde atravessa as janelas altas, filtrando-se pelas cortinas pesadas. No centro, uma mesa de jacarandá ocupa a cena com autoridade. A câmera se move lentamente, em traveling, até encontrar o rosto fechado de Eriberto, trajando terno azul-marinho impecável, mãos cruzadas sobre documentos confidenciais.
A porta se abre. O Capitão Neves entra, uniforme militar com as condecorações indecorosas que o tempo transformou em insulto silencioso à democracia. Ele não pede licença. Eles já se conhecem demais para isso.
NEVES - (seco, direto) O pessoal das comunidades quer garantias. As vans, os terrenos da Zona Oeste e o armamento. Você sabe.
ERIBERTO - (sem levantar os olhos)Se eles me apoiarem como prometeram, terão mais do que garantias. Terão poder institucionalizado.
NEVES 0 (senta, cruza a perna com arrogância): Você não é exatamente um fenômeno de carisma, Eriberto. Vai precisar mais do que isso.
ERIBERTO - (sorri de canto, venenoso)Mas sou o que restou. E você está inelegível. Golpe de Estado em 2022, lembra? Tentaram reinventar a história, mas a Justiça Eleitoral não tem memória tão curta quanto a população.
NEVES - (puxa um charuto, o acende lentamente) Eles não precisam gostar de você. Precisam temer o que virá se não apoiarem. E nisso, você é perfeito.
ERIBERTO – (ergue os olhos, gélido) Então, estamos entendidos?
Neves assente com um aceno quase imperceptível. Ambos sabem que estão selando algo sujo. Um pacto de silêncios, de cadáveres políticos e reais. A câmera se afasta lentamente, revelando que na sala ao lado, Consuelo ouve tudo por trás da porta entreaberta, olhos arregalados, as mãos tremendo sobre uma pasta rosa-bebê com os dizeres “Campanha 2026”.
A trilha de fundo é instrumental, tensa e contida, como um suspiro prestes a explodir.
CORTE PARA:
CENA 7. APARTAMENTO DE EVELYN. SALA DE ESTAR. INT. DIA
A luz da tarde entra filtrada pelas cortinas translúcidas. Evelyn, sentada em um sofá modernista de linho bege, segura uma taça de vinho branco como quem segura um pressentimento. Márcia entra aflita, com uma pasta de documentos sob o braço.
MÁRCIA - (sem rodeios) O apartamento da Celeste nunca foi vendido. Está vazio desde a noite em que ela morreu.
EVELYN -(ergue os olhos com interesse, mas mantém a postura) Isso muda tudo.
MÁRCIA - (angustiada) Eu preciso voltar lá. Preciso ver se a minha cabeça lembra de alguma coisa. Pode ser uma porta, uma foto na parede, qualquer coisa. Aquela noite foi um borrão.
Evelyn se levanta, caminha até o bar de cristal, serve mais vinho para si e para Márcia.
EVELYN - Você sabe o que está dizendo? Voltar à cena do crime. Não é só sobre lembrar. É sobre encarar. Você está pronta pra isso?
MÁRCIA - Talvez não. Mas a Celeste e o Bruno morreram por causa de algo que eu disse. Que eu vi. E esquecer virou um luxo que eu não posso mais ter.
Evelyn a encara com um olhar sério. Há admiração ali, mas também receio. Ela entrega a taça para Márcia.
EVELYN - Então vamos juntas.
CORTE PARA:
CENA 8. RIO DE JANEIRO. EXT. ANOITECER
SONOPLASTIA – “IF IT MAKES YOU HAPPY” – SHERYL CROW
Imagens aéreas da cidade ao entardecer. O céu mescla tons de lilás, dourado e azul escuro. A câmera plana lentamente sobre os Arcos da Lapa, o Cristo Redentor encoberto por nuvens esparsas, e a Baía de Guanabara refletindo os últimos raios de sol.
A música preenche o silêncio melancólico das cenas:
– Um ônibus passa por Ipanema, onde Sibeli, sozinha no banco do fundo, olha para a rua pela janela entreaberta, o cabelo esvoaçando.
– Evelyn, deitada na cama, encara o teto do quarto com um copo de vinho quase cheio ao lado. Um livro aberto sobre o colo, mas ela não lê – pensa.
– Laurinha anda a passos firmes pela Lagoa, com os fones no ouvido e expressão dura. Paula Lee a observa de longe, do outro lado da pista, sem ser notada.
– Roberto digita algo no celular dentro de um carro parado no Aterro do Flamengo. Ele hesita, apaga, escreve de novo. Um suspense silencioso.
– Marcia, sentada no banco da praça em frente ao antigo prédio de Celeste, observa a entrada do edifício com o olhar distante. Evelyn se aproxima, as duas trocam um aceno cúmplice.
– Capitão Neves fuma um charuto na sacada do Palácio Guanabara. O vento agita a bandeira do estado. Ao fundo, Eriberto aparece à janela do gabinete, falando ao telefone.
A música continua.
A câmera se eleva novamente, mostrando a orla de Copacabana, agora iluminada, as ondas batendo suavemente. A faixa de areia vazia.
Fade out na música.
CORTE PARA:
CENA 9. APARTAMENTO DE CELESTE. SALA DE ESTAR. INT. NOITE
O apartamento está mergulhado numa penumbra densa, móveis antigos, tapetes desgastados e um aroma de histórias não contadas. A porta range sob o impacto das mãos de Márcia e Evelyn, que batem com força. O silêncio é pesado, quase um personagem.
De repente, a porta se abre com suavidade e Stella aparece, impecável, vestida com uma aura de frieza aristocrática. Seus olhos brilham com um misto de surpresa e desprezo.
STELLA - (com voz cortante, controlada) Metade deste lugar é seu, Márcia. Sempre foi. Você não precisa arrombar a porta — podia simplesmente pedir a chave.
Márcia para, respirando com dificuldade, as mãos ainda tremendo. Evelyn, ao seu lado, mantém o olhar firme, mas visivelmente desconfortável.
MÁRCIA - (entre dentes, com raiva contida) Pedir? Depois do que fizeram comigo? Você acha que pedir é suficiente? Que eu aceitaria ser apenas a sombra de alguém aqui?
Stella se aproxima, um passo lento e calculado, invadindo o espaço das irmãs, como se dominasse o ar.
STELLA - (sussurrando, quase um veneno) Vinte e cinco anos foram tempo demais para essa guerra muda. Você não quer só o apartamento, Márcia. Quer apagar uma vida inteira que eu construí.
EVELYN - (tentando intervir) Chega, as duas. Isso não vai resolver nada.
Mas Stella a ignora, olhando diretamente nos olhos de Márcia, uma faísca de rancor antiga.
STELLA - (mais alto, cortante) Você sempre achou que podia fugir dos seus fantasmas. Que a verdade era um luxo só seu. Mas eu? Eu sempre enfrentei os meus. E é por isso que estou aqui — firme, intacta, enquanto você está quebrada, na porta, implorando para entrar.
Márcia respira fundo, segurando as lágrimas que ameaçam escapar. O silêncio pesa, quase sufoca.
MÁRCIA - (voz baixa, mas firme) Então que comece. Que finalmente a gente pare de fingir que não nos destruímos a vida toda. Porque eu não vou embora. Nem hoje, nem nunca.
Um instante de silêncio absoluto. As duas se encaram, não como irmãs, mas como adversárias numa batalha que vai muito além das paredes do apartamento.
Câmera se afasta lentamente, deixando o eco do confronto no ar.
CORTA PARA:
FIM
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