A OUTRA
CAPÍTULO 15
UMA NOVELA DE TAÍS GRIMALDI
CENA 1 – JOCKEY CLUB BRASILEIRO. EXT. DIA.
O sol bate impiedoso sobre a multidão em choque. Câmeras de TV, celulares, seguranças tentando conter o caos. Sirenes ao fundo. Gritos abafados.
Close em Paula Lee, imóvel, com os olhos fixos no corpo de Sibeli estendido na grama. Ela está pálida, os lábios trêmulos. De repente, ela solta o grito que todos evitavam dar.
PAULA LEE - (gritando, rasgando a garganta) SIBELI!!!
Ela corre em direção ao corpo, mas é contida por um segurança. O foco muda – uma SUV preta para bruscamente na calçada.
Porta se abre com violência. Sai Laurinha, descalça, ainda com o crachá de "VIP" no pescoço. Vê a filha no chão. Os olhos se enchem de lágrimas antes mesmo de entender. Ela atravessa a multidão empurrando quem estiver no caminho.
LAURINHA - (em pânico) Saiam da frente! Deixem eu ver minha filha! Minha filha!
Ela se ajoelha e, ignorando todos os protocolos, pega Sibeli nos braços, abraçando o corpo sem vida, embalada em um choro que vem das entranhas.
LAURINHA - (desesperada) Minha menina (pausa) minha pequenininha (pausa) mamãe tá aqui...
O choro ecoa. Câmeras captam tudo. Uma transmissão ao vivo é interrompida por imagens do desespero de Laurinha. A comoção é generalizada.
CORTE PARA: Eriberto, que chega correndo com dois agentes da segurança. Ele enxerga Laurinha abraçando o corpo. A expressão dele mistura dor e racionalidade. Ele se aproxima com firmeza.
ERIBERTO - (tentando manter a frieza) Laurinha, larga. Por favor. Você não pode tocar nela. Isso é cena de crime.
LAURINHA - (sem soltar o corpo) Ela é minha filha, Eriberto! Você quer que eu a deixe aqui como um bicho morto?!
ERIBERTO - (num tom firme e triste) Eu sei, Laurinha, mas se você ama a Sibeli, você precisa ajudar a justiça. Não contamina a cena.
Um momento de hesitação. Laurinha olha para o rosto da filha, acaricia com a mão tremendo. Depois, com a dignidade de uma leoa ferida, beija-lhe a testa e recua.
Laurinha desaba nos braços de Eriberto. Ao fundo, Paula Lee continua imóvel, sendo amparada por um assessor. O público observa em silêncio. Um pássaro cruza o céu.
A câmera se eleva lentamente, revelando o corpo de Sibeli no centro do campo, rodeado pela elite, pela mídia, pelo sangue, pela tragédia.
CORTA PARA
ABERTURA
CENA 2 – JOCKEY CLUB BRASILEIRO. EXT. DIA.
Movimentação intensa. Viaturas cercam a área. Jornalistas são contidos. O corpo de Sibeli já está coberto. CURIOSOS se acumulam atrás do cordão de isolamento. Uma tensa coreografia de poder, choque e cinismo. A elite observa de longe, fingindo indignação. Chegam três policiais e uma delegada — elegante, incisiva, sem tempo para fingimentos: é a DELEGADA YONA MAGALHÃES.
POLICIAL 1 - (consultando celular) Olha isso. Apostaram 180 mil reais contra a vitória da Sibeli. No minuto exato que ela foi assassinada.
DELEGADA YONA - (seca) E alguém vai dizer que é coincidência, claro. No Brasil tudo é coincidência. Até a morte.
POLICIAL 2 - (sarcástico) Riquinha, mimada.Com esse corpinho de influencer, fácil esconder doping em detox de spa.
DELEGADA YONA - (revirando os olhos, cansada) Sibeli era atleta. Não traficante. Nem mafiosa. Só cometeu o crime de existir em um país onde mulher bonita e rica sempre vira alvo.
POLICIAL 3 - (entra com uma expressão amarga, segurando um tablet) Delegada, filmagens do circuito externo. Acha que é coisa amadora?
Yona pega o tablet. Vemos a gravação: alguém de boné e jaqueta escura se aproxima sorrateiramente atrás das arquibancadas. Um movimento rápido. Um disparo. O vulto some com a mesma frieza com que chegou.
DELEGADA YONA - (fria, contida) Execução limpa. Rápida. Sem paixão. Isso aqui não foi ciúme nem desespero. Foi contrato.
Ela ergue os olhos e observa o Jockey: o verde luxuoso, os camarotes cintilantes, os binóculos de madames. Tudo em silêncio. Como se nada tivesse acontecido.
DELEGADA YONA - (com ironia amarga) Bem-vindos ao espetáculo. Só que hoje, o prêmio é um cadáver.
Câmera se afasta lentamente, captando o contraste entre o luxo do lugar e a brutalidade do crime.
CORTA PARA:
CENA 3. APARTAMENTO DE EVELYN E MÁRCIA. SALA DE ESTAR. INT. DIA
O apartamento é simples, mas bem decorado, com toques pessoais das duas moradoras. Um quadro de Frida Kahlo na parede. Luz do fim de tarde entrando pelas cortinas.
A porta se abre bruscamente. Márcia entra, suando, com os cabelos desgrenhados, visivelmente perturbada. Atira a bolsa no sofá.
MÁRCIA - (gritando) EVELYN?!
Evelyn entra da cozinha com uma xícara de café. Está com o rosto tenso, o celular na mão. Ela viu as notícias.
EVELYN - Aqui! O que foi? Cê tá branca!
MÁRCIA - (caminha em círculos) Você viu? As imagens (pausa) as malditas imagens! Eu tava no Jockey! Fui procurar a Marisa, você sabe! Mas o vídeo tá em tudo quanto é canto! A pessoa que matou a Sibeli tá com a mesma jaqueta e o mesmo boné que eu usei hoje!
EVELYN - (pálida) Aquela jaqueta de moletom?
MÁRCIA -Sim! E o boné azul que você me emprestou! A pessoa que aparece no vídeo é praticamente a minha silhueta! Eu saí por um dos fundos, cê sabe, fui atrás da Marisa para conhecer e cheguei tão perto da minha sobrinha.
EVELYN - (chega perto, segura os ombros de Márcia) Márcia, calma. Respira. Eu devia ter ido com você. Desculpa. Mas escuta, ninguém vai confundir você. Você não fez nada.
MÁRCIA -Claro que vão confundir! Eu sou a ex-presidiária, a assassina de novela barata! Acham que matei minha mãe e o cafajeste do amante da Stella, você sabe disso! E agora isso?
EVELYN - (frágil, tentando ser firme) Não vão te culpar de novo. Eu sou jornalista, Márcia. Se alguém tentar te incriminar, eu mesma escrevo a verdade. Nem que eu tenha que derrubar essa delegada nova no grito.
MÁRCIA - (irônica) Aquela Yona Magalhães? Com cara de quem viu todos os episódios de Law & Order e acha que é a Glenn Close?
EVELYN - (sem rir) A Yona é mais esperta do que parece. Mas se for preciso, eu boto ela no centro de um escândalo. Eu já derrubei político com menos. E a gente vai achar a Marisa. Ela pode ter visto quem fez isso.
MÁRCIA -(senta no sofá, exausta) E se tiverem matado ela também?
EVELYN - (senta ao lado) Então a gente vai enterrar mais um silêncio. Mas não o seu.
As duas ficam em silêncio. A televisão ao fundo mostra uma cobertura ao vivo do crime no Jockey. A imagem congelada: uma figura de jaqueta preta e boné azul correndo entre as arquibancadas. Márcia fecha os olhos, dominada pelo medo.
CORTA PARA:
CENA 4 – JOCKEY CLUB BRASILEIRO. EXT. DIA.
Uma área mais afastada do alvoroço. Os gritos e a comoção em torno do corpo de Sibeli soam ao fundo, abafados pela vegetação e pelo som distante dos cavalos. Selena e Stella observam de longe, como se fossem parte do mundo mas não se misturassem a ele.
SELENA - (baixando o celular, gelada) Achei.
Ela vira o celular lentamente para Stella. Na tela, uma imagem ampliada do circuito interno: Márcia, de jaqueta preta e boné escuro, caminhando entre os pavilhões do Jockey. Mesmo pixelada, a imagem é incrivelmente incriminadora. Stella a observa com um sorriso gélido.
STELLA - (alisa o queixo) A santinha de presídio no meio da elite hípica. É quase poético.
SELENA - Você quer que eu envie pra imprensa?
STELLA -(olhos fixos na tela, entredentes) Não. Ainda não. Primeiro os grupos. Depois os bots. Depois os justiceiros digitais. (pausa) Milícia digital. Nossa melhor aliada — e mais barata que advogado.
SELENA -(irônica) E mais eficiente.
Elas se encaram. A tensão entre as duas é espessa. Um olhar mais demorado do que o necessário. Uma espécie de guerra e jogo de sedução que pulsa no subtexto.
STELLA - (sem desviar o olhar) Você se veste pra matar, mas eu sei que não mata por impulso.
SELENA - (depõe o celular com calma) Comigo é tudo cálculo, Stella. Inclusive o desejo.
STELLA - (chegando mais perto, perigosamente) Então me deseje com estratégia. E me derrube com método.
Selena dá um meio sorriso, meio desafio, meio rendição. Mas não responde. Elas continuam paradas lado a lado, como cúmplices e rivais, olhando de volta para a área central do Jockey, onde a tragédia ainda é notícia quente — e um corpo ainda não esfriou.
CORTA PARA:
CENA 5 – JOCKEY CLUB BRASILEIRO. EXT. DIA.
Arthur e Paula Lee caminham em silêncio, afastados da multidão que ainda murmura perto do local onde o corpo de Sibeli foi encontrado. O murmúrio das testemunhas, o som abafado dos cavalos ao fundo, o Rio fervilhando por trás da tragédia.
ARTHUR - (baixando o tom, tenso) Sibeli me mandou uma mensagem. Ontem à noite. Disse que precisava me contar uma coisa algo grave. Eu achei que fosse mais um delírio. Um capricho.
PAULA LEE - (olhando ao redor, inquieta) E agora ela tá morta.
ARTHUR - (sério) Ela parecia assustada. Disseram que foi parada cardíaca, mas não era o tipo de mulher que caía assim, sem barulho.
Paula Lee pega o celular, recebe uma notificação. Seus olhos se arregalam ao ver um vídeo sendo compartilhado em massa. A imagem mostra Márcia, no Jockey, usando boné e jaqueta – as mesmas roupas vistas antes.
PAULA LEE - (incrédula, baixo) Isso é de agora...
A legenda do vídeo: “ASSASSINA ENTRE NÓS? MÁRCIA, EX-DETENTA, NO LOCAL DA MORTE DE SIBELI.”
ARTHUR - O que foi?
PAULA LEE - (estremecida) Estão dizendo que foi a Márcia. Estão plantando isso. Como se já estivesse tudo pronto.
Ela analisa as imagens, vê os ângulos perfeitos, o foco preciso – parece tudo muito armado.
PAULA LEE - (firme, para si) Isso tem dedo da Stella. Só pode ter. Ela odeia a irmã, tem o poder e a frieza pra isso.
ARTHUR - Você acha mesmo que ela seria capaz?
PAULA LEE - (pausa, encarando o horizonte) A Stella não seria capaz de matar. Mas incriminar? Com prazer. E com estilo.
Arthur observa Paula, curioso. Há algo entre eles que não se revela – nem precisa. Mas Paula parece muito mais envolvida do que deixa transparecer.
A câmera se afasta lentamente, revelando os telões do Jockey agora tomados por notificações, boatos e a palavra “assassinato” ecoando entre sussurros e flashes de celular.
CORTA PARA:
CENA 6 – COBERTURA DE LAURINHA. SALA DE ESTAR. INT. NOITE
Ambiente silencioso, luxuoso, mas carregado. Laurinha está adormecida no sofá, sob efeito de sedativos. Luzes baixas. Uma chuva fina escorre pelos vidros da cobertura. ZILDA MARIA está sentada próxima a Laurinha, acariciando seus cabelos. CONSUELO, tensa, observa a cidade através da janela.
ZILDA MARIA - (voz baixa, decidida) Ela não podia ter visto aquilo. Nem ouvido o que ouviu.
CONSUELO - Mas ouviu, Zilda. E viu. E desabou. Você sedou a Laurinha. Eu a abracei. E estamos aqui como duas sentinelas de um passado que nunca morre.
ZILDA MARIA - (sarcástica, mas abalada) Você dramatiza demais. Eu só quero protegê-la.
CONSUELO - E eu, proteger o Eriberto. (virando-se lentamente)
Ou você acha que ele suportaria saber o que aconteceu naquela noite? E que provavelmente perdeu a filha hoje por isso?
Zilda se levanta. Caminha até o bar, serve um uísque para si. Consuelo a observa como quem já conhece cada gesto seu. Elas se enfrentam com olhares.
ZILDA MARIA -Você sempre foi previsível quando tentava ser ameaçadora.
CONSUELO - Não estou ameaçando. Estou avisando. Há coisas que nem mesmo você pode enterrar com concreto e silêncio.
Zilda dá um sorriso gélido, dolorido, quase com ternura.
ZILDA MARIA - Fizemos escolhas. Eu, por amor. Você, por culpa.
CONSUELO -Você não sabe o que é culpa, Zilda. Quem nunca pediu perdão não sabe.
Pausa. O silêncio pesa. A câmera se aproxima de Laurinha, dormindo com expressão aflita. Voltamos às duas mulheres.
ZILDA MARIA - A Laurinha não vai sofrer. Nem o Eriberto. Nem você. (bebendo) Mas, se precisar, eu derrubo o mundo outra vez.
Consuelo se aproxima. Muito perto. O clima entre elas é denso. Quase íntimo.
CONSUELO - Então estamos no mesmo lado, mesmo que nunca estejamos na mesma cama.
ZILDA MARIA - (seca) Você ainda sonha com isso?
Pausa tensa. Consuelo a encara. Depois sorri. Um sorriso antigo, vencido, triste.
CONSUELO - Só quando estou cansada de mentir pra mim mesma.
Ela sai. Zilda Maria permanece imóvel. Sozinha. A câmera sobe lentamente, revelando a cidade lá fora, tomada por relâmpagos distantes.
CORTA PARA:
CENA 7 – DELEGACIA. ESCRITÓRIO DE YONA. INT. DIA
A câmera acompanha a delegada Yona, incisiva, elegante no estilo sóbrio passando por um corredor tenso da delegacia. Seu semblante é fechado. Ela entra em seu escritório, fecha a porta com firmeza. Luz natural entra pelas venezianas meio abertas. O ambiente é moderno, mas há papéis, pastas, relatórios e telas ligadas em várias câmeras e redes sociais.
Sobre sua mesa, um vídeo em looping no computador: imagens de Sibeli sendo empurrada violentamente do deque — o rosto de quem a empurra é claramente o de Márcia. Ou quase claramente.
YONA - (seco, para si mesma): Eles juram que é ela. A maldita internet já condenou...
Ela se senta. Abre uma pasta. Dentro, estão imagens impressas do vídeo, prints de redes sociais, manchetes alarmistas.
Ela disca um número no ramal.
YONA - (ao telefone): Dr. Aroldo, preciso da prisão preventiva da Márcia Ferraz. Agora. Sim, com base no vídeo que está circulando. O promotor vai engolir seco, mas vai aceitar. É pressão demais.
Pausa. Ela ouve a resposta.
YONA - (mais calma, mas firme): Não, ainda não temos laudo técnico. Mas essa mulher ficou presa anos, foi condenada por matar a mãe e o amante e agora aparece ligada à morte da Sibeli? O que você acha que a imprensa vai dizer se eu cruzar os braços?
Ela desliga. Suspira. A tensão cresce. Por um momento, Yona olha para a imagem congelada de Márcia na tela — e algo dentro dela vacila.
YONA - (murmura, quase em dúvida) Mas por que ela mataria a Sibeli? Qual é a história por trás disso?
A porta se abre — entra Renata, assistente, jovem, eficiente.
RENATA - Doutora, a imprensa já está aqui fora. Querem saber da prisão.
YONA (- recompondo-se)Manda eles esperarem. Por enquanto, ninguém fala nada. Nem sim, nem não.
Renata sai. Yona permanece sozinha no silêncio tenso. Ela fecha os olhos por um segundo, exausta. O som da rua invade a sala. Em off, o burburinho da cidade, dos julgamentos externos, da pressão.
CORTE PARA: plano detalhe do mouse clicando em "Enviar" – o pedido de prisão é oficialmente encaminhado ao Ministério Público.
CORTE PARA
CENA 8 – JOCKEY CLUB BRASILEIRO. EXT. DIA
O sol ainda está alto, mas a luz começa a ganhar um tom mais suave, quase melancólico, que envolve a paisagem exuberante do Jockey Club. O burburinho do evento diminuiu, substituído por um silêncio mais carregado, onde as emoções pendem no ar.
No canto menos movimentado, perto de uma árvore frondosa, Roberto, elegante, mas com o semblante abatido, está encostado, olhando para o chão, como quem tenta conter uma tempestade interna. Seu corpo tenso, os ombros curvados — um homem que carrega um peso invisível.
Ao seu lado, Marcelo, com olhos atentos e um sorriso suave se aproxima lentamente, sem pressa, respeitando o silêncio que envolve Roberto. Ele segura uma taça de vinho, que agora parece quase esquecida.
MARCELO - (voz baixa, com cuidado) Roberto, eu sei que não é fácil. Ninguém espera que as coisas tomem esse rumo.
Ele não responde, apenas levanta os olhos, límpidos, que encontram os dela. A conexão entre eles é silenciosa, profunda.
MARCELLO - (continua) A dor é um lugar estranho, mas a gente não precisa estar só nele.
Roberto finalmente vira o rosto, encarando Marcelo com uma vulnerabilidade inesperada. Ele estende a mão, hesitante, e ele aceita, entrelaçando os dedos. O toque é delicado, cheio de significado.
A sonoplastia começa a crescer sutilmente — uma voz doce e firme, a de Maria Bethânia cantando “Olha” — a melodia invade o espaço, imergindo a cena em um clima de esperança e intimidade.
Eles ficam ali, imóvel, deixando o tempo fluir entre olhares, gestos mínimos, uma tensão contida que pulsa com desejo e conforto.
Marcelo encosta a cabeça no ombro de Roberto, que respira fundo, permitindo-se finalmente relaxar um pouco.
A câmera se afasta lentamente, registrando aquele momento de silêncio e ternura em meio ao caos que os cerca.
CORTA PARA:
CENA 9 – APARTAMENTO DE EVELYN E MÁRCIA. SALA DE ESTAR. INT. DIA
O apartamento é moderno, com janelas amplas que deixam entrar a luz clara do fim da manhã. A decoração mescla objetos pessoais e livros espalhados, refletindo vidas entrelaçadas de duas mulheres que dividem mais que o espaço — dividem segredos e sonhos.
Paula Lee chega, vestida com a elegância discreta de quem não quer chamar atenção, mas cujo olhar é intenso e carregado de uma urgência contida. Ela hesita um instante diante da porta antes de entrar.
Dentro, Márcia está sentada no sofá, o rosto marcado por uma tensão quase palpável. O olhar dela se ergue ao ouvir a chegada de Paula Lee, uma mistura de alívio e preocupação que se revela sem palavras.
As duas se encaram por um momento, como se buscassem no olhar uma segurança frágil, uma aliança silenciosa.
PAULA LEE - (com voz baixa, quase um sussurro) Precisamos conversar. O que está acontecendo é maior do que imaginamos. E você, Marcia, está no centro disso tudo.
Marcia permanece em silêncio, os dedos entrelaçados nervosamente no colo, o casaco e o boné que usou hoje ainda visíveis ao seu lado — uma lembrança concreta do que a cerca.
A conversa entre elas começa tensa, carregada de subtexto. Paula questiona, Marcia se defende, mas há algo não dito que paira no ar — medo, talvez, ou culpa, ou até mesmo uma esperança desesperada.
De repente, um som seco na porta interrompe o momento.
BATIDA FORTE NA PORTA
Ambas se viram rapidamente. Paula Lee encara Marcia, os olhos cheios de inquietação.
PAULA LEE - (sussurrando) Eles chegaram.
CORTA PARA:
Som de passos apressados e vozes abafadas fora do campo de visão.
A câmera foca no rosto de Marcia, que respira fundo, tentando manter a compostura. Seu olhar se perde por um instante na janela, enquanto a tensão se materializa no ar.
CORTA PARA:
FIM
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