A OUTRA

CAPÍTULO 26

UMA NOVELA DE TAÍS GRIMALDI


CENA 1 – BAÍA DE GUANABARA. MAR. EXT. NOITE

NOITE é cortada por reflexos de fogo sobre a água escura.
Destroços do AVIÃO boiam, queimam, afundam lentamente.

O mar está revolto, pesado, quase cúmplice da tragédia.

MÁRCIA surge entre os escombros, ferida, exausta, nadando com dificuldade. O rosto cortado, o cabelo grudado de sangue e água salgada.

Ela gira o corpo, desesperada, procurando.

MÁRCIA - Stella! (grita, a voz rasgada) Stella!

Um pedaço da fuselagem surge à frente.
Sobre ele, STELLA, desacordada, imóvel.

Márcia nada até ela com o último resto de força.
Agarra a irmã, arrasta seu corpo para cima de um grande fragmento do avião.

As duas ficam ali, flutuando precariamente.

Márcia segura o rosto de Stella com as mãos trêmulas.
Bate de leve. Depois mais forte.

MÁRCIA - (acordando-a à força) Não… não, não faz isso comigo. Acorda!

Stella não reage.

Márcia começa a chorar. Um choro feio, sem glamour, misturado com água e sangue.

Ela encosta a testa na da irmã.

MÁRCIA - Você não pode morrer agora… (engolindo o choro) Não antes de me contar a verdade.

Ela se afasta um pouco, encara o rosto pálido de Stella.

MÁRCIA - Você me deve isso. Você me deve aquela noite.

Uma vertigem súbita.

Márcia leva a mão à própria cabeça. Os dedos saem ensanguentados.

Ela pisca várias vezes, a visão começa a falhar. O som do mar fica distante, abafado.

Ao longe, SIRENES. Luzes de resgate cortam a escuridão, ainda muito distantes.

Do ponto de vista de Márcia, tudo fica turvo. As luzes se multiplicam, tremem.

Ela segura Stella com força, como uma âncora.

MÁRCIA - (sussurrando, quase inaudível) Não foge… não foge de mim…

Sua cabeça pesa. O corpo cede.

A câmera se afasta lentamente, mantendo o PONTO DE VISTA DE MÁRCIA:
— o céu girando
— o som do helicóptero crescendo
— as luzes piscando sobre o mar

Antes de perder completamente a consciência, vemos os RESGATISTAS se aproximando, ainda distantes, quase irreais.

O rosto de Márcia afunda na sombra.

ESCURIDÃO.

O som do mar permanece por alguns segundos.

CORTA PARA:

CENA 2 – BAÍA DE GUANABARA. AMANHECER. EXT.

SONOPLASTIA – “O TEMPO NÃO PARA” – ELSA SOARES

AMANHECER surge pesado, sem beleza. O céu acinzentado se reflete no mar revolto, ainda marcado por destroçosmanchas de óleo e fragmentos metálicos do jato. O cenário é de pós-guerra.

BARCOS DE RESGATE continuam o trabalho. MERGULHADORES emergem exaustos. HELICÓPTEROS sobrevoam em círculos lentos.

O luxo despedaçado flutua como um deboche: uma poltrona de couro, uma taça quebrada, documentos oficiais colados pela água salgada.

A voz rasgada de ELZA SOARES atravessa a cena como sentença.

CORTA PARA:

PARAMÉDICOS retiram corpos em macas. Rostos cobertos.
Outros, inconscientes. Entre eles, STELLA.
Imóvel. Pálida. Intubada. Logo atrás, MÁRCIA. A cabeça enfaixada, o corpo ferido, respirando com dificuldade.

Os olhos de Márcia se abrem por um segundo.
Ela tenta falar, mas não consegue.

Um SOCORRISTA segura sua mão.

SOCORRISTA – Calma, agora você tá segura.

Márcia fecha os olhos novamente.

CORTA PARA:

Na ORLA, a cidade desperta sob o impacto da tragédia.
Viaturas, sirenes, curiosos afastados por grades.

A imprensa já domina o espaço.
Câmeras ligadas antes mesmo do sol aparecer por completo.

A música cresce:

“O tempo não para…”

A Baía permanece ali, imóvel, cúmplice silenciosa do que ainda será revelado.

CORTE PARA.

 

CENA 3 – HOSPITAL. FACHADA. EXT. DIA

Um CERCO MIDIÁTICO toma conta da frente do hospital.
Vans de emissoras, satélites apontados para o céu, repórteres alinhados.

O clima é de urgência nacional.

Diante das câmeras, RENATA VASCONCELLOS, impecável, grave, consciente do peso de cada palavra.

RENATA VASCONCELLOS – Bom dia. O Brasil acordou hoje com a notícia de um grave acidente envolvendo o jato oficial do governador do estado do Rio de Janeiro.

Enquanto ela fala, imagens do resgate na Baía de Guanabara surgem em telões e inserts.

RENATA VASCONCELLOS - A aeronave caiu durante a madrugada. A bordo estavam Stella, esposa do governador, e sua irmã gêmea, Márcia.

CORTA PARA:

A porta do hospital se abre. Médicos entram e saem. Rostos fechados. Protocolos rígidos.

RENATA VASCONCELLOS - (CONT.) Segundo informações confirmadas até o momento, ambas foram resgatadas com vida, mas permanecem inconscientes e em estado grave.

A câmera se aproxima do rosto dela.

RENATA VASCONCELLOS - O hospital está sob forte esquema de segurança, e a família ainda não se pronunciou oficialmente.

FLASHES explodem ao fundo. Um repórter tenta ultrapassar a barreira. É contido.

RENATA VASCONCELLOS - Seguimos acompanhando este caso que já provoca repercussão política e institucional em todo o país.

Ela faz uma breve pausa, consciente da dimensão histórica do momento.

RENATA VASCONCELLOS - Voltamos a qualquer momento com novas informações.

A transmissão encerra. Mas o barulho continua. O cerco midiático só aumenta.

A câmera se afasta lentamente, mostrando o hospital sitiado por câmeras, curiosos e silêncio oficial.

Nada é dito. Tudo é suspeita.

CORTE PARA:

CENA 4 – APARTAMENTO DE ARTHUR. SALA. INT. DIA

A sala é moderna, mas há algo desalinhado no ar. Cortinas semiabertas, a luz do fim de tarde entra cortando o ambiente em lâminas claras. Arthur anda de um lado para o outro, inquieto, segurando o celular. Paula Lee está sentada no sofá, exausta, o olhar perdido em algum ponto invisível.

Arthur para diante dela.

ARTHUR - Eu voltei a pensar nisso a noite inteira. Não me sai da cabeça.

Paula levanta os olhos, impaciente, mas atenta.

PAULA LEE - Pensar no quê, Arthur?

ARTHUR - Na mulher. Aquela que o Stu visitou depois de tudo desandar. (pausa) Mercedes.

O nome cai pesado entre eles.

Paula se mexe no sofá, desconfortável. Cruza as pernas, depois descruza. Um gesto nervoso.

PAULA LEE -Você já tinha falado dela.

ARTHUR - Mas agora faz sentido demais pra ser coincidência. (ele se aproxima, baixa o tom) Mercedes não é só uma figura lateral. Ela aparece sempre nos momentos errados. Sempre perto demais do caos.

Paula passa a mão pelo rosto, cansada.

PAULA LEE - Stu nunca me pareceu inocente demais. Só conveniente.

ARTHUR - Exato. (engata, rápido) E se o Stu tiver ligação direta com o assassino do Vinícius? Ou pior: se ele for a ponte entre tudo isso?

Paula se levanta abruptamente. O assunto a atravessa como um golpe.

PAULA LEE - Chega.

Arthur se cala, surpreso.

PAULA LEE - (com a voz embargada, mas firme) Eu sei onde isso pode dar. Sei que as peças se encaixam. Sei que você pode estar certo. (pausa) Mas agora eu não tenho cabeça pra isso.

Ela pega a bolsa largada sobre a cadeira.

ARTHUR Paula...

PAULA LEE - (interrompe) Não. Hoje não.

Ela respira fundo, luta para manter o controle.

PAULA LEE - A Márcia tá entre a vida e a morte. Um hospital cheio de câmeras, médicos que falam em protocolos, em tempo crítico… (engole seco) Eu não vou ficar aqui teorizando assassinato enquanto minha amiga tá inconsciente numa maca.

Arthur a observa, com culpa misturada à compreensão.

ARTHUR - Eu só achei que você precisava saber.

PAULA LEE - E eu sei. (olha nos olhos dele) Só não agora.

Ela caminha em direção à porta. Para por um segundo, sem se virar.

PAULA LEE - Mas guarda esse nome. Mercedes. (um fio de ameaça) Se o Stu tiver mesmo alguma coisa a ver com a morte do Vinícius, isso vai voltar. E vai voltar grande.

Ela sai. A porta se fecha.

Arthur fica sozinho na sala. O silêncio pesa. Ele olha para o celular ainda na mão, como se ali estivesse uma resposta que ninguém quer encontrar.

A câmera se afasta lentamente.

CORTE PARA

CENA 5 – HOSPITAL PARTICULAR. CORREDOR DA UTI. INT. DIA

O corredor é estreito, iluminado por luzes frias. O clima é de tensão e silêncio forçado — enfermeiros passam rápido, jornalistas tentam se aproximar, mas são barrados por seguranças.

PAOLA está encostada na parede, braços cruzados, olhar duro, mas cansado. Ela observa a porta da UTI como quem vigia um segredo.

A porta do elevador se abre.

ERIBERTO e CONSUELo surgem — impecáveis, tensos, carregando a arrogância de quem acredita que o mundo deve abrir caminho.

Ao ver Paola, Consuelo trava. Eriberto endurece o maxilar.

CONSUELo — (veneno puro) O que você está fazendo aqui?

Paola nem se move.

PAOLA — Me preocupando com a minha sobrinha. Coisa que vocês só lembraram de fazer quando a Stella quase morreu.

Eriberto dá um passo à frente, irritado.

ERIBERTO — Não fale da minha família desse jeito.

PAOLA — (riso curto) Sua família? Você só aparece quando a sua imagem corre risco. Marisa quase morreu e você estava onde? Ensaiando discurso?

Consuelo se aproxima, dedo em riste.

CONSUELo — Você não tem moral nenhuma pra falar de família. Você é uma vergonha ambulante. Uma mulher perdida, sem decência, sem—

PAOLA — (interrompe, firme) Cala a boca.

Consuelo arregala os olhos, indignada.

CONSUELo — Eu estou falando com você! Você vai me ouvir, sim! Eu deveria ter te educado na base da disciplina. Na minha época, a ditadura militar dava um jeito em gente como você. Te trancavam numa sala com uma cobra pra aprender a obedecer!

Paola sorri. Um sorriso lento, perigoso.

PAOLA — Eu não tenho medo de cobra, Consuelo. Eu fui criada por uma.

O tapa vem rápido. Seco. Preciso.

Consuelo leva a mão ao rosto, chocada, depois recua dois passos, teatral.

CONSUELo — (fingindo choro) Vocês viram isso? Ela me agrediu! Essa delinquente! Essa criminosa!

Eriberto tenta intervir, nervoso.

ERIBERTO — Paola, chega! Você passou dos limites!

PAOLA — (vira-se para ele, sem medo) E você continua o mesmo banana de sempre.

Eriberto empalidece.

PAOLA — (aproxima-se, cruel) Tão banana que sabe que a sua mulher tem uma amante… e ainda convive pacificamente com ela.

Silêncio absoluto.

É nesse momento que SELENA surge no corredor, elegante, fria, calculada. Ela para ao ouvir a frase.

SELENA — (seca) Cuidado com o que você diz, Paola.

PAOLA — (vira-se devagar, sorriso venenoso) Ah, querida… eu só digo o que todo mundo já sabe. Menos o banana ali, que finge que não vê pra não perder o cargo.

Selena dá um passo à frente, pronta para atacar.

SELENA — Você não sabe nada sobre mim.

PAOLA — Sei o suficiente pra te derrubar em dez segundos.

O clima explode em tensão.

Mas antes que Selena responda, a porta da UTI se abre.

Um MÉDICO surge, sério, cansado, segurando uma prancheta.

MÉDICO — Família da paciente Marisa Albuquerque de Medeiros?

Todos se viram ao mesmo tempo.

O médico respira fundo.

MÉDICO — Ela está se recuperando. A overdose foi grave, mas… ela vai sobreviver.

Paola fecha os olhos, aliviada.

Eriberto desaba num suspiro tenso.

Consuelo leva a mão ao peito, fingindo emoção.

Selena apenas observa, calculando o próximo movimento.

A câmera se afasta lentamente, deixando o corredor carregado de segredos, ódio e uma guerra que está longe de terminar.

CORTE PARA.

CENA 6 – COBERTURA DE LAURINHA. SALA. INT. DIA

A COBERTURA está inundada pela luz do meio-dia. Tudo é impecável, caro, calculado — mas há um caos silencioso no ar, como se a casa estivesse segurando a respiração.

ZILDA MARIA está sentada no sofá, pernas cruzadas, postura impecável, observando Laurinha com olhos afiados.

LAURINHA surge da varanda, usando um robe de seda estampado, óculos escuros enormes e um sorriso que não combina com a tragédia do dia.

ZILDA MARIA — (seca, direta) Laurinha, você não tem nada a ver com o atentado que a Stella sofreu, tem?

Laurinha para no meio da sala. Tira os óculos devagar. O sorriso cresce, enigmático, quase infantil.

LAURINHA — (doce, perigosa) Zilda, você me conhece. Eu jamais faria algo tão previsível.

Zilda estreita os olhos. Não acredita. Não duvida. Apenas observa.

Laurinha caminha até o bar. Pega uma garrafa de champanhe francesa. Analisa o rótulo como quem escolhe um perfume.

ZILDA MARIA — (tensa) Laurinha, isso é sério. A Stella pode estar morta.

Laurinha abre a garrafa com um ESTOURO ELEGANTE, quase teatral. A espuma transborda, brilhante, festiva.

LAURINHA — (erguendo a taça, radiante) Pois então,um brinde.

Zilda se levanta, chocada.

ZILDA MARIA — Você enlouqueceu?

Laurinha dá um gole generoso, fecha os olhos, saboreia.

LAURINHA — (com prazer, venenosa) Zilda, minha querida se a Stella realmente morreu (pausa dramática, sorriso de diva decadente) o Rio de Janeiro acaba de ficar muito mais bonito.

Zilda leva a mão à boca, horrorizada.

ZILDA MARIA — Laurinha, pelo amor de Deus!

Laurinha gira pela sala como uma estrela de novela dos anos 80, taça na mão, robe esvoaçando.

LAURINHA — (cantando, debochada) Hoje é dia de festa: no céu, no inferno ou no Palácio das Laranjeiras.

Ela para diante de Zilda, encara-a com brilho malicioso.

LAURINHA — (baixo, felina) E se alguém perguntar, eu estava aqui. Com você. Chorando. Sofrendo. (ri alto) Ou qualquer outra mentira bonita.

Zilda respira fundo, derrotada.

ZILDA MARIA — Você é um perigo, Laurinha.

Laurinha brinda sozinha, olhando para o horizonte pela janela.

LAURINHA — (sussurra, satisfeita) Eu sou exatamente o que esse mundo merece.

A câmera se afasta enquanto Laurinha dança sozinha pela sala, celebrando uma tragédia como se fosse um prêmio.

CORTE PARA:

CENA 7 – HOSPITAL PARTICULAR. CORREDOR DA UTI. INT. NOITE

O corredor está ainda mais cheio. Repórteres tentam se aproximar, flashes atravessam as frestas das portas, seguranças barram curiosos. O clima é de cerco.

A porta do elevador se abre.

EVELYN surge primeiro — impecável, fria, com um olhar que corta. GIUSEPPE vem logo atrás, tenso. PAULA LEE fecha o trio, elegante e exausta, mas firme.

Ao ver o grupo, SELENA se aproxima com passos calculados, como uma pantera que reconhece outra predadora.

EVELYN — (seca) Não veio me dar boas-vindas, né?

SELENA — (um sorriso fino) Vim perguntar como você ainda está viva.

Giuseppe e Paula trocam olhares tensos.

Selena dá um passo à frente, voz baixa, venenosa.

SELENA — Eu mesma preparei aquele gás no seu apartamento. Era pra você não levantar nunca mais daquela cama.

Evelyn não reage. Apenas observa. Um silêncio que incomoda.

SELENA — (provocando) Então me diz, como sobreviveu?

Evelyn sorri. Um sorriso pequeno, perigoso, que não revela nada.

EVELYN — Ah, Selena (pausa, afiada) Você devia se preocupar menos com o que eu sobrevivi e mais com o que eu estou juntando.

Selena estreita os olhos.

EVELYN — Provas. Contra a Stella. Contra você. Contra todo esse circo.

Selena perde o sorriso.

SELENA — Você não tem nada.

EVELYN — Ainda não. (aproxima-se, sussurra) Mas vou ter.

O clima fica elétrico. Paula observa de longe, apreensiva. Giuseppe engole seco.

Antes que Selena responda, a porta da UTI se abre com força.

Um MÉDICO surge, sério, segurando uma prancheta.

MÉDICO — Família da paciente Stella Albuquerque de Medeiros?

Eriberto, Consuelo e Selena se aproximam imediatamente, como abutres em sincronia.

O médico respira fundo.

MÉDICO — A paciente Stella… acordou.

Consuelo leva a mão ao peito, emocionada demais para ser real. Eriberto solta um suspiro de alívio teatral. Selena sorri — um sorriso de vitória, quase cruel.

MÉDICO — Mas… (olha para a prancheta) Márcia permanece em coma. Estado grave. Sem previsão de melhora.

O corredor congela.

Paula fecha os olhos, devastada. Giuseppe baixa a cabeça. Evelyn respira fundo, como quem já esperava o pior.

Enquanto isso…

Eriberto, Consuelo e Selena trocam olhares discretos — e satisfeitos.

A vitória deles tem gosto amargo, mas é vitória.

Paula percebe. E sente o sangue ferver.

PAULA LEE — (fria, cortante) Impressionante. A Stella abre o olho e vocês comemoram, enquanto a Márcia luta pra sobreviver.

Consuelo vira-se, indignada.

CONSUELo — Não fale do que você não entende!

Paula dá um passo à frente, firme.

PAULA LEE — Eu entendo muito bem. (olha para os três) Vocês só se importam com quem pode salvar a própria pele.

Silêncio pesado.

Selena encara Evelyn, como se dissesse: a guerra começou.

Evelyn devolve o olhar: eu sei.

A câmera se afasta lentamente, capturando o corredor dividido em dois mundos:

— o trio do poder, celebrando a sobrevivência da rainha deles; — os demais, temendo o que vem pela frente.

CORTE PARA.

CENA 8 – HOSPITAL PARTICULAR. QUARTO DE STELLA. INT. NOITE – GANCHO FINAL

O quarto é silencioso, quase sagrado. Luz baixa, máquinas apitando em ritmo lento. Na cama, STELLA verdadeira, imóvel, frágil, intubada. O poder dela agora cabe num fio de respiração.

A porta se abre devagar.

MÁRCIA entra.

Mas não como Márcia.

Ela entra como Stella.

O cabelo arrumado, a postura impecável, o olhar frio — uma imitação perfeita, mas com algo mais sombrio por trás. Ela se aproxima da cama, observa a irmã por longos segundos.

MÁRCIA — (sussurro, firme) Vinte e cinco anos (pausa) Vinte e cinco anos pagando por um crime que não era meu. (pausa) E você… sempre calada. Sempre protegida. Sempre intocável.

Ela toca o lençol da irmã — não com carinho, mas com cálculo.

MÁRCIA — Agora é minha vez de ser você. E eu juro (olhos marejados, mas duros) Eu juro que vou descobrir o que aconteceu naquela noite. Naquele apartamento. Naquela prisão que você deixou cair sobre mim.

Ela respira fundo, recompõe a máscara — Stella perfeita.

De repente…

A porta se abre com violência.

Entram ERIBERTOCONSUELo e SELENA.

Os três congelam ao vê-la de pé.

CONSUELo — (teatral, emocionada demais) Minha filha! Graças a Deus você está bem!

Eriberto força um sorriso político. Selena observa com olhos de predadora — desconfiada, mas fingindo alívio.

MÁRCIA (como Stella) — (fria, elegante) Não façam tanto barulho. Estou viva, não surda.

Consuelo corre até ela, pega sua mão.

CONSUELo — Você nos deu um susto horrível. O Brasil inteiro está em pânico.

MÁRCIA — (puxando a mão, seca) O Brasil sempre esteve em pânico, Consuelo. Só vocês que fingem que não.

Eriberto tenta se aproximar.

ERIBERTO — Stella, precisamos conversar sobre o acidente. A imprensa—

MÁRCIA — (interrompe, firme) O acidente? (olha para ele, penetrante) Ou o atentado?

Eriberto empalidece.

Selena dá um passo à frente, tensa.

SELENA — Você lembra de alguma coisa?

MÁRCIA — (olhar afiado, estudando cada reação) Lembro de tudo. (pausa longa) Inclusive do que aconteceu há vinte e cinco anos.

O ar some do quarto.

Consuelo trava. Eriberto engole seco. Selena perde o sorriso.

CONSUELo — (nervosa) Stella, isso não é hora de falar do passado.

MÁRCIA — (aproxima-se dela, lenta, ameaçadora) O passado voltou. E desta vez (olha para os três, um por um) Eu não vou proteger ninguém.

Selena tenta recuperar o controle.

SELENA — Stella, você acabou de acordar de um trauma. Não pode confiar na sua memória assim

MÁRCIA — (corta, gelada) Eu confio mais na minha memória do que na lealdade de vocês três.

Silêncio mortal.

Eriberto tenta sorrir, mas falha.

ERIBERTO — Stella, você está diferente.

MÁRCIA — (olhar fixo, perigoso) Estou. (pausa) E vocês vão ter que se acostumar.

A câmera fecha no rosto dela — Stella perfeita, mas com o fogo de Márcia nos olhos.

Um olhar que promete vingança. E revelações.

CORTE PARA: 

FIM

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