A OUTRA
CAPÍTULO 28
UMA NOVELA DE TAÍS GRIMALDI
CENA 1 – QUARTO DE HOSPITAL. INT. DIA
Luz branca e fria, quase cruel; o silêncio do hospital pesa. A câmera trabalha com planos fechados, valorizando olhares, respirações, microexpressões. Nada é melodramático — é elegante, cortante, cheio de subtexto.
O quarto é amplo, mas impessoal. Márcia está sentada na poltrona ao lado da cama, ainda com a postura rígida da conversa anterior. Laurinha entra fechando a porta com cuidado, como quem sabe que qualquer ruído pode atrair atenção indesejada.
A câmera acompanha Laurinha em travelling lento até ela parar diante de Márcia.
LAURINHA - (baixando a voz, sem perder a ironia) Você saiu tão rápido que eu achei que fosse desmaiar no corredor.
MÁRCIA - Eu precisava de ar. (pausa curta) E de distância.
Laurinha observa Márcia com um interesse clínico, quase divertido.
LAURINHA - Distância de mim ou da situação?
MÁRCIA - Da Stella. (olha para a janela, tensa) Ou do que eu vou fazer com o nome dela.
A câmera se aproxima lentamente do rosto de Márcia, revelando a determinação que ela tenta esconder.
LAURINHA - Então você realmente decidiu.
MÁRCIA - (decidida, mas baixa) Eu vou me passar por ela. E vou conseguir as provas. Do Heriberto… (pausa, mais pesada) E da própria Stella.
Laurinha se aproxima da cama e ajeita mecanicamente o lençol, como se estivesse organizando o caos emocional da amiga.
LAURINHA - Você sabe que isso pode explodir na sua mão.
MÁRCIA - Tudo já explodiu, Laurinha. Eu só estou recolhendo os estilhaços certos.
A câmera corta para Laurinha, que finalmente demonstra algo além de frieza: admiração.
LAURINHA - Você está mais parecida com a Stella do que imagina.
MÁRCIA -(sorri, amarga) A diferença é que eu não finjo ser boazinha.
Um bip do monitor cardíaco preenche o silêncio. A direção deixa o som ecoar, criando tensão.
LAURINHA - E o que você quer que eu faça?
MÁRCIA - O que você sempre faz. (olha diretamente nos olhos dela) Abrir portas. Fechar outras. E garantir que, se alguém desconfiar, a culpa caia em qualquer pessoa… menos em mim.
Laurinha cruza os braços, pensativa. A câmera gira lentamente ao redor das duas, como se medisse o peso da decisão.
LAURINHA - Você quer guerra.
MÁRCIA - Eu quero justiça. E, se for preciso, quero que doa.
Laurinha dá um sorriso pequeno, quase imperceptível.
Márcia respira fundo, firme.
MÁRCIA - Eu não quero aplauso. Quero resultado.
A câmera se afasta devagar, deixando as duas em silêncio, iluminadas pela luz fria do hospital. O clima é de pacto — perigoso, elegante, inevitável.
CORTA PARA:
CENA 2 – APARTAMENTO DE CAROLINA – SALA DE ESTAR – INT. DIA
Luz natural entrando pelas janelas, mas a atmosfera é pesada. A câmera começa em plano detalhe: a mão de Roberto fechando o zíper da mala. Depois, um travelling lento revela o ambiente — organizado, mas frio, como se ninguém realmente vivesse ali. O som ambiente é abafado, como se o apartamento estivesse segurando a respiração.
Roberto coloca a segunda mala ao lado da porta. Está calmo, mas firme. Carolina surge do corredor, ainda segurando uma xícara de café, surpresa e irritada ao mesmo tempo.
CAROLINA (olhando as malas, seca) O que é isso, Roberto?
Ele não hesita. A câmera foca no rosto dele, sereno, decidido.
ROBERTO Significa que eu estou indo embora.
Carolina ri — um riso curto, incrédulo, quase debochado.
CAROLINA Indo embora por quê? (aproxima-se, agressiva) O que deu em você agora?
Roberto respira fundo. A direção deixa um silêncio desconfortável antes da fala.
ROBERTO Eu não vou continuar morando com duas homofóbicas. (olha diretamente para ela) Você e a Ana Maria deixaram isso muito claro.
Carolina fica imóvel por um segundo, como se tivesse levado um tapa. Depois, reage com veneno.
CAROLINA Homofóbica? (ri, indignada) Ah, faça-me o favor, Roberto. Eu só disse a verdade. Esse seu… estilo de vida… não combina com esta casa.
A câmera fecha no rosto de Roberto, que não reage. Ele apenas observa, como quem finalmente enxerga algo que sempre esteve ali.
CAROLINA (continua, cada vez mais cruel) E outra: você sempre foi influenciável. Esse Marcelo aí… (olhar de desprezo) Ele te manipula. Te usa. E você cai feito um bobo.
Roberto pega a mala maior. Não responde. Não pisca. Não dá a Carolina o espetáculo que ela quer.
CAROLINA (alterada, quase gritando) Você vai jogar sua vida fora por causa de uma fase? Por causa de um capricho?
Roberto abre a porta. A câmera acompanha o movimento em travelling lento, como se marcasse um rito de passagem.
CAROLINA (grita a última cartada) Você vai se arrepender! O mundo não tem paciência pra gente como você!
Roberto para por meio segundo na porta. A direção mantém o plano fixo, esperando uma resposta que não vem.
Ele sai.
A porta se fecha com um clique seco — mais doloroso que qualquer grito.
Carolina fica sozinha na sala, respirando pesado, mas sem admitir para si mesma que perdeu.
CORTA PARA:
CENA 3 – FRENTE DO PRÉDIO – EXT. DIA
Luz dourada de fim de tarde; a câmera trabalha com planos longos, contemplativos. A música de Maria Bethânia entra como se viesse do próprio vento — “Olha” ecoa suave, preenchendo o espaço entre os personagens. O som da cidade fica distante, quase irrelevante.
Roberto sai do prédio carregando as malas. O rosto ainda traz o peso da discussão com Carolina, mas há algo novo ali: alívio. A câmera acompanha em travelling lento, quase flutuando.
O carro de Marcelo está estacionado em frente. Ele desce assim que vê Roberto, com um sorriso que mistura preocupação e ternura.
MARCELO (baixo, acolhedor) Vem cá. Me deixa te ajudar.
Ele pega uma das malas sem pedir permissão — um gesto simples, mas cheio de significado. A câmera foca nas mãos dos dois se tocando por um segundo a mais do que o necessário.
A música cresce.
SONOPLASTIA – “OLHA”, MARIA BETHÂNIA
Roberto tenta sorrir, mas os olhos denunciam o turbilhão interno. Marcelo percebe.
MARCELO (olhando nos olhos dele) Acabou. Agora você respira.
Roberto desvia o olhar, emocionado. Marcelo se aproxima um pouco mais, sem pressa, sem medo.
ROBERTO Eu… eu não sei o que vai ser da minha vida agora.
Marcelo segura o rosto dele com delicadeza — um gesto que contrasta com toda a violência emocional da cena anterior.
MARCELO A gente descobre junto.
A câmera gira ao redor dos dois, lenta, como se o mundo estivesse finalmente permitindo que eles existissem.
Marcelo abre a porta do carro para Roberto. Ele entra. Marcelo dá a volta, senta ao volante e, antes de ligar o motor, segura a mão de Roberto.
MARCELO (um sussurro) Você não está sozinho.
Roberto aperta a mão dele de volta. A música atinge o refrão.
O carro parte devagar. A câmera os acompanha até que o veículo se perca na luz dourada do horizonte — um futuro incerto, mas finalmente possível.
CORTA PARA:
CENA 4 – QUARTO DE MARISA – INT. DIA
Luz suave entrando pela janela; a câmera trabalha com planos fechados, captando respirações, toques, hesitações. O silêncio é tão importante quanto as falas. A trilha é mínima, apenas um piano distante, criando intimidade e melancolia.
Marisa está sentada na cama, ainda frágil, mas com um brilho nos olhos ao ouvir a porta abrir. Márcia entra como Stella — postura impecável, voz doce, mas com uma tensão interna que ela tenta disfarçar.
A câmera foca no rosto de Marisa, que se ilumina imediatamente.
MARISA (baixa, emocionada) Mãe…
Márcia sente o impacto da palavra. Ela respira fundo, como se algo dentro dela se movesse — algo que ela não entende.
MÁRCIA (como Stella) (aproximando-se, suave) Eu vim assim que soube que você estava melhor.
Ela se senta ao lado da cama. A câmera mostra as duas em perfil, quase espelhadas — um detalhe sutil que sugere o laço biológico que nenhuma delas conhece.
Marisa segura a mão de Márcia com força.
MARISA Eu queria te pedir desculpas. Por tudo que eu disse. Por tudo que eu fiz.
Márcia acaricia a mão dela com o polegar — um gesto instintivo, maternal, que surpreende até a própria Márcia.
MÁRCIA (como Stella) (shhh, delicada) Não fala assim. Eu também errei. Eu devia ter te ouvido mais. Ter sido mais… presente.
Marisa sorri, com lágrimas nos olhos.
MARISA Você está aqui agora. É o que importa.
A câmera fecha no rosto de Márcia — há algo ali, um reconhecimento inconsciente, uma dor antiga que ela não sabe nomear.
MÁRCIA (como Stella) (voz embargada, mas controlada) Eu nunca quis te machucar. Nunca.
Marisa encosta a cabeça no ombro dela. Márcia hesita por um segundo… e depois envolve a jovem num abraço cheio de ternura.
A direção deixa o abraço durar mais do que o habitual — o suficiente para o público sentir o vínculo verdadeiro, mesmo que as duas não saibam.
MARISA (olhos fechados) Eu senti tanto a sua falta.
Márcia fecha os olhos também, como se algo dentro dela finalmente encontrasse um lugar.
MÁRCIA (como Stella) Eu também senti a sua.
Silêncio. Apenas o piano.
A câmera circula lentamente ao redor das duas, revelando a profundidade emocional do momento — mãe e filha, sem saber que são mãe e filha.
Marisa aperta a mão de Márcia.
MARISA Promete que não vai me deixar?
Márcia sorri com doçura — um sorriso que ela não sabia que tinha.
MÁRCIA (como Stella) Eu prometo.
A promessa paira no ar, bonita e trágica — porque ela promete algo que não pode cumprir, e promete como Stella… quando deveria prometer como Márcia.
A câmera se afasta devagar, deixando as duas abraçadas, unidas por um amor que nenhuma delas entende completamente.
CORTA PARA:
CENA 5 – RIO DE JANEIRO – EXT. ANOITECER
Sonoplastia: “Que País É Este” – Legião Urbana (instrumental ou apenas a atmosfera da música, sem letra).
Planos abertos da cidade; o sol se pondo atrás dos prédios; a câmera alterna entre tomadas aéreas e detalhes urbanos — buzinas, ônibus lotado, vendedores ambulantes, o contraste entre beleza e caos. A música dá o tom: crítica, inquieta, pulsante.
A câmera passeia pelo Rio como se estivesse observando um organismo vivo. O céu alaranjado contrasta com a pressa das pessoas nas calçadas.
Um corte mostra o trânsito parado no Aterro. Outro corte mostra jovens conversando na Lapa. Outro, um morador de rua recolhendo seus pertences antes da noite.
A música cresce.
A direção deixa claro: o país está em ebulição, e essa ebulição vai atravessar a trama.
A câmera sobe lentamente até revelar o prédio onde Arthur mora.
CORTA PARA:
CENA 6 – APARTAMENTO DE ARTHUR – INT. NOITE
Sonoplastia: continuação da atmosfera de “Que País É Este” – Legião Urbana.
Luz baixa, ambiente silencioso, apenas o som da música ao fundo e o clique do mouse. A câmera trabalha com planos fechados — olhos, mãos, tela do computador — criando suspense.
Arthur está sentado diante do notebook, cercado de papéis, anotações, recortes. Ele está concentrado de um jeito quase obsessivo.
A câmera mostra a tela sem revelar o conteúdo: artigos, reportagens, documentos digitalizados, gráficos, fotos. Ele abre abas, fecha outras, amplia imagens, lê trechos rapidamente.
O rosto dele muda — primeiro curiosidade, depois inquietação, depois algo mais grave.
Ele encontra algo.
A câmera fecha no olhar dele, que se arregala levemente.
Arthur se recosta na cadeira, respira fundo, como se estivesse tentando processar o que acabou de descobrir.
Mas não vemos o que é.
A música cresce, reforçando o suspense.
Ele pega o celular, hesita… e não liga para ninguém.
Apenas sussurra para si mesmo:
ARTHUR (baixo, tenso) Meu Deus…
A câmera se afasta devagar, deixando Arthur pequeno diante da tela iluminada — e da descoberta que o público ainda não conhece.
CORTA PARA:
CENA 7 – COBERTURA DE LAURINHA – INT. NOITE
Iluminação quente, ambiente luxuoso, mas com sombras que sugerem segredos. A câmera passeia lentamente pela sala ampla, revelando taças de cristal, arranjos florais impecáveis e um clima de tensão silenciosa. Cada personagem é apresentado em close, como se estivéssemos entrando na mente deles.
Zilda Maria, Evelyn, Paula Lee e Giuseppe estão sentados no imenso sofá de veludo. Todos inquietos — Laurinha nunca convoca ninguém sem motivo.
Laurinha surge do corredor com a elegância de quem domina o ambiente. Ela segura uma taça de espumante, mas não bebe. A câmera acompanha seus passos com reverência.
LAURINHA (serena, mas com veneno) Obrigada por terem vindo tão depressa.
Zilda Maria cruza as pernas, desconfiada.
ZILDA MARIA Você disse que era urgente. O que está acontecendo?
Laurinha faz uma pausa dramática. A câmera fecha no rosto dela. O silêncio pesa.
LAURINHA (precisa, cirúrgica) A Márcia… (olha cada um nos olhos) …está se passando pela Stella.
Um choque percorre o grupo. A câmera corta rapidamente entre os rostos:
— Evelyn, boquiaberta.
— Paula Lee, levando a mão ao peito.
— Giuseppe, arregalando os olhos. — Zilda Maria, que se levanta de súbito.
EVELYN (sem acreditar) Isso é sério, Laurinha?
LAURINHA Mais do que vocês imaginam.
PAULA LEE Mas… por quê? O que ela ganha com isso?
Laurinha se aproxima da janela, olhando a cidade lá embaixo como se fosse dona dela.
LAURINHA Ela quer provas. Contra o Eriberto. E contra a própria Stella.
Giuseppe se levanta, nervoso.
GIUSEPPE Isso é uma loucura! Se descobrirem, ela acaba na cadeia!
Laurinha vira-se lentamente, com um sorriso frio.
LAURINHA Ou acaba no poder. Depende de quem estiver do lado dela.
Zilda Maria se aproxima, indignada.
ZILDA MARIA E você está do lado dela?
Laurinha encara Zilda com uma calma que assusta.
LAURINHA Eu estou do lado… (uma pausa longa, calculada) …do que for mais interessante.
A câmera fecha no rosto de Laurinha — um olhar que promete caos.
EVELYN (assustada) Laurinha… isso pode destruir todo mundo.
Laurinha dá um passo à frente, dominando a sala.
LAURINHA Ou pode revelar quem realmente somos.
Silêncio. Pesado. Denso.
A câmera circula lentamente ao redor do grupo, mostrando o impacto da revelação. Cada um reage de um jeito: medo, fascínio, indignação, curiosidade.
Laurinha ergue a taça — não para brindar, mas como um gesto de poder.
LAURINHA (baixa, ameaçadora) A partir de agora… nada do que vocês sabiam continua valendo.
A música sobe. A câmera se aproxima do rosto de Laurinha até preencher a tela.
CORTE PARA:
FIM
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