A OUTRA
CAPÍTULO 29
UMA NOVELA DE TAÍS GRIMALDI
CENA 1 — APARTAMENTO DA LAURINHA — NOITE
O clima é ainda mais pesado agora que a verdade está clara: Stella, em coma, é o centro de um plano que ninguém tem coragem de admitir em voz alta que é cruel — mas inevitável.
Laurinha encara o grupo com firmeza. A pasta com os documentos está sobre a mesa, aberta, revelando a transferência médica.
Giuseppe observa o papel como se fosse uma sentença.
LAURINHA (baixa, objetiva) Giuseppe, você vai assinar a transferência da Stella. Eles acreditam que ela é a Márcia. E isso precisa continuar assim.
Paula Lee ajeita os óculos, tensa.
PAULA LEE A Stella vai ser levada para a clínica de repouso. Lá, ninguém vai questionar o estado dela. Vão manter a sedação, como o hospital já faz. É discreto. É seguro.
Evelyn solta um suspiro indignado.
EVELYN Seguro pra quem? Pra gente. Porque pra ela… (gesto vago, amarga) …ela nem sabe o que está acontecendo.
Zilda Maria, que até então caminhava pela sala, para de repente.
ZILDA MARIA A Stella não pode acordar no hospital. Se acordar, a farsa acaba. E a Márcia… (olha para Laurinha, quase acusando) …a Márcia não pode voltar a ser Márcia agora.
Laurinha não desvia o olhar.
LAURINHA A Márcia está fazendo o que precisa ser feito. E nós também.
Giuseppe finalmente pega a caneta. A mão treme.
GIUSEPPE Eu nunca imaginei que um dia fosse assinar algo assim… (engole seco) …mas se é pra proteger as duas, eu assino.
Paula Lee se aproxima, firme.
PAULA LEE O documento está perfeito. A Stella será transferida como “Márcia”. E a Márcia continua como “Stella”. (pausa) Ninguém vai desconfiar — desde que todos mantenham a mesma história.
Evelyn cruza os braços, amarga.
EVELYN História é o que não falta nessa família.
Zilda Maria fecha os olhos por um instante, como se pedisse perdão a alguém que não pode ouvir.
Laurinha respira fundo, encerrando o assunto.
LAURINHA Amanhã cedo, a ambulância chega. Depois disso… não tem mais volta.
A câmera se afasta, revelando o grupo unido por um segredo que pesa mais do que qualquer um deles admite.
CORTA PARA:
CENA 2 — APARTAMENTO DO ARTHUR — NOITE
O apartamento de Arthur é o oposto do de Laurinha: frio, organizado demais, quase impessoal. A única luz vem da cozinha, deixando a sala em sombras alongadas. Arthur está sozinho, sentado à mesa, o celular apoiado no ouvido.
Ele não fala de imediato. Apenas escuta. O silêncio do outro lado da linha parece tão presente quanto ele.
Finalmente, Arthur rompe a quietude.
ARTHUR (tenso, baixo) Eu já estou no apartamento. Pode subir quando quiser.
Ele faz uma pausa, ouvindo a resposta — mas nós não ouvimos. O rosto dele permanece indecifrável, mas algo nos olhos denuncia que essa visita não é trivial.
ARTHUR Tá. Eu espero.
Ele encerra a ligação devagar, como se cada segundo fosse calculado. Depois, apoia o celular na mesa e fica imóvel, olhando para a porta de entrada. A expectativa é quase palpável. Quem está vindo? Por quê? O que isso significa para o plano?
A câmera se aproxima lentamente do rosto dele, que permanece impassível — mas claramente alerta.
CORTA PARA:
CENA 3 — HOSPITAL — QUARTO DE STELLA — NOITE
O quarto é silencioso, iluminado apenas pela luz azulada dos monitores. Stella está imóvel na cama, respirando com ajuda dos aparelhos. O ambiente tem aquele cheiro frio de hospital, misturado com a sensação de que algo ali não pertence.
Márcia — vestida como Stella, cabelo arrumado, postura ensaiada — está sentada ao lado da cama, observando a mulher em coma com um misto de culpa e determinação.
A porta se abre devagar.
Selena entra.
Ela fecha a porta atrás de si com cuidado, mas seus olhos denunciam um turbilhão. Ela encara Márcia como quem olha para alguém que conhece profundamente… e que, de repente, parece estranho.
SELENA (voz baixa, carregada) Eu sabia que você estaria aqui.
Márcia se levanta, desconfortável.
MÁRCIA (como “Stella”) Selena… agora não é um bom momento.
Selena dá um passo à frente, ignorando o aviso. Ela se aproxima demais, como se buscasse um cheiro, um gesto, qualquer coisa que confirme o que sente.
SELENA Eu senti sua falta. (pausa, intensa) Você sempre me deixou entrar. Sempre.
Márcia recua um passo. Selena avança dois.
MÁRCIA Selena, por favor… eu não quero—
SELENA (interrompe, ferida) Não quer? (ri, amarga) A Stella nunca me disse “não”. Nunca.
Márcia endurece o rosto, tentando manter a farsa.
MÁRCIA As coisas mudaram.
Selena a encara como se tivesse levado um tapa.
SELENA Mudaram… ou você mudou?
O silêncio pesa.
Selena olha Márcia de cima a baixo, como se estivesse vendo uma impostora pela primeira vez — mas sem conseguir acreditar nisso, porque acreditar doeria ainda mais.
Ela se aproxima de novo, quase encostando o rosto no dela.
SELENA (voz baixa, quebrada) Se você é a Stella… por que está me rejeitando?
Márcia desvia o olhar. Isso é o suficiente.
Selena recua um passo, depois outro. O rosto dela se transforma — a dor vira raiva, a raiva vira algo mais escuro.
SELENA (olhar frio, perigoso) A Stella nunca me tratou assim. Nunca.
Ela olha para Stella na cama, depois para Márcia, e algo dentro dela se parte.
SELENA (ferida, quase sussurrando) Se você é ela… então você me odeia. E se não é… (pausa longa, ameaçadora) …então alguém aqui está mentindo.
Márcia empalidece.
Selena dá meia‑volta e sai do quarto com passos rápidos, quase animalescos — como uma fera ferida que, ao invés de fugir, está indo caçar.
A porta bate.
Márcia fica sozinha, respirando fundo, tentando se recompor — mas o perigo já está solto no corredor.
CORTA PARA:
CENA 4 — RIO DE JANEIRO — AMANHECER
SONOPLASTIA: “Roda Viva” — Francisco El Hombre (versão intensa, percussiva, crescente).
O sol nasce por trás dos prédios, tingindo o céu de laranja e rosa. O Rio acorda com pressa: ônibus passando, vendedores abrindo barracas, carros buzinando, gente correndo para o trabalho. A cidade pulsa, viva, indiferente ao drama que se desenrola em silêncio.
CORTES RÁPIDOS:
— A praia ainda vazia, ondas quebrando com força. — Um jornaleiro abrindo a banca, jornais estampando manchetes sobre política e escândalos. — Um helicóptero da polícia cruzando o céu. — O Cristo Redentor iluminado pelos primeiros raios, imponente, observando tudo.
A música cresce.
CORTA PARA:
O hospital, visto de fora. Um prédio frio, cinza, que contrasta com a beleza da cidade. A ambulância está estacionada na entrada lateral, motor ligado, portas traseiras abertas.
A cidade desperta. O plano começa.
CORTA PARA:
CENA 5 — HOSPITAL — TRANSFERÊNCIA DE STELLA — MANHÃ
A câmera acompanha a maca sendo empurrada pelo corredor. Stella — que todos acreditam ser Márcia — está imóvel, profundamente sedada. O som dos monitores acompanha o ritmo da música que ainda ecoa ao fundo.
Giuseppe caminha ao lado da maca, tenso, segurando a pasta com os documentos da transferência. Ele tenta manter a postura, mas o rosto denuncia o peso da decisão.
Paula Lee acompanha do outro lado, impecável, profissional, mas com o olhar duro de quem sabe que qualquer detalhe pode arruinar tudo.
ENFERMEIRA (serena, sem desconfiar) A transferência já está autorizada. A clínica foi avisada. Ela vai continuar recebendo a mesma medicação.
Paula Lee sorri com educação — mas seus olhos permanecem frios.
PAULA LEE Ótimo. Queremos que tudo seja exatamente como aqui.
Giuseppe olha para Stella, com uma mistura de culpa e proteção.
GIUSEPPE (baixo, quase para si mesmo) Vai ficar tudo bem… eu prometo.
A maca chega à porta da ambulância. Dois paramédicos ajudam a colocá-la lá dentro.
Paula Lee sobe primeiro, organizando o espaço, verificando os frascos de sedação, conferindo cada detalhe como se estivesse montando uma cena de teatro.
Giuseppe sobe em seguida, ainda segurando a pasta.
A porta da ambulância se fecha com força.
O motorista olha pelo retrovisor.
MOTORISTA Rumo à clínica São Damião?
Paula Lee responde antes que Giuseppe possa abrir a boca.
PAULA LEE Sim. E sem paradas.
O motorista acena e liga a sirene baixa, discreta.
A ambulância parte.
A câmera acompanha o veículo se afastando, desaparecendo no trânsito do Rio — enquanto a música chega ao refrão, explosiva, como um presságio.
CORTA PARA:
CENA 6 — HOSPITAL — EXTERIOR / CORREDORES — MANHÃ
SONOPLASTIA: “See You Next Wednesday” — Gavin Salkeld (clima tenso, pulsante, crescente).
Selena está parada no corredor, imóvel, mas com o olhar fixo na porta lateral do hospital. Ela observa a movimentação da equipe médica empurrando a maca — Stella sedada, inconsciente, sendo levada para a ambulância.
A câmera fecha no rosto de Selena.
Os olhos dela não piscam. Não respiram. Não perdoam.
É um olhar faminto, ferido, perigoso.
A música cresce.
Ela dá um passo. Depois outro. Como um predador seguindo o cheiro do sangue.
CORTA PARA:
EXTERIOR — ÁREA LATERAL DO HOSPITAL
A ambulância está com as portas abertas. Giuseppe e Paula Lee entram, tensos, focados. Ninguém percebe Selena, que se esconde atrás de uma coluna, observando cada movimento com precisão quase doentia.
A câmera acompanha o olhar dela:
— Stella sendo colocada na ambulância. — Giuseppe segurando a pasta. — Paula Lee dando instruções rápidas. — O motorista fechando as portas.
Selena aperta os dedos contra a parede, como se estivesse segurando o próprio corpo para não avançar.
SELENA (baixa, para si mesma, voz quebrada e sombria) Você não vai fugir de mim… Stella.
A ambulância liga o motor.
Selena dá um passo à frente, como se fosse se jogar na frente do veículo — mas se contém. O olhar dela se estreita, calculando.
A ambulância começa a se mover.
Selena começa a andar.
Depois correr.
A música explode.
Ela atravessa o estacionamento como um animal ferido, movida por dor, raiva e obsessão. Os carros buzinam, pessoas gritam, mas ela não escuta nada — só vê a ambulância se afastando.
Ela chega à rua, ofegante, e vê o veículo dobrar a esquina.
Os olhos dela brilham com algo perigoso.
SELENA (sussurrando, quase um aviso) Eu vou atrás de você.
Ela segue a pé, determinada, sem olhar para trás — completamente fora de si, completamente entregue ao que sente.
A câmera sobe, mostrando Selena pequena na imensidão da cidade, mas movida por uma força que parece maior que ela.
CORTA PARA:
CENA 7 — CLÍNICA SÃO DAMIÃO — MANHÃ
A ambulância estaciona diante da entrada discreta da clínica. O prédio é moderno, silencioso, com jardins impecáveis — um lugar feito para esconder segredos com classe.
Dois enfermeiros aguardam na porta. Assim que as portas traseiras da ambulância se abrem, eles se aproximam para receber a maca.
Stella — ainda profundamente sedada — é retirada com cuidado. O sol da manhã ilumina seu rosto imóvel, criando um contraste perturbador entre a paz aparente e o caos que a envolve.
Giuseppe desce logo atrás, segurando a pasta com força. Paula Lee desce em seguida, já assumindo o comando da situação.
ENFERMEIRO (educado, profissional) Podem deixar conosco. O quarto dela já está preparado.
Paula Lee entrega alguns documentos, mas mantém o olhar atento, como se estivesse fiscalizando cada gesto.
PAULA LEE Quero que sigam exatamente as instruções do hospital. Nada de mudanças na medicação sem me consultar.
O enfermeiro acena, acostumado a familiares controladores.
A maca é levada para dentro da clínica.
Giuseppe observa, angustiado, como se estivesse entregando alguém que ama para um destino desconhecido.
Paula Lee se aproxima dele, falando baixo, quase num sussurro.
PAULA LEE Giuseppe… eu preciso voltar imediatamente.
Ele a encara, confuso.
GIUSEPPE Agora? Mas a Stella—
PAULA LEE (interrompe, firme) Arthur. (pausa) Eu não o vi ontem à noite. Ele não apareceu. Não atendeu. Não mandou mensagem. (olhar tenso) Isso não é normal.
Giuseppe respira fundo, preocupado.
GIUSEPPE Você acha que tem algo errado?
PAULA LEE Eu acho que… (pausa, escolhendo as palavras) …eu preciso ver com meus próprios olhos.
Ela ajeita a bolsa no ombro, já decidida.
PAULA LEE Fique com a Stella. Eu volto assim que souber o que está acontecendo.
Giuseppe concorda com um aceno silencioso.
A câmera se afasta dos dois.
E então vemos.
SELENA.
Escondida atrás de uma árvore do jardim da clínica, parcialmente coberta pela sombra. O rosto dela está tenso, os olhos arregalados, fixos na ambulância, na maca, em Giuseppe, em Paula Lee — em tudo.
Ela não ouviu a conversa. Mas viu. Viu tudo.
O olhar dela é um misto de obsessão, dor e algo mais escuro — algo que cresce a cada cena.
A câmera fecha no rosto dela.
Selena sorri. Um sorriso pequeno. Perigoso.
CORTA PARA:
CENA 8 — HOSPITAL — QUARTO / CORREDOR — MANHÃ (VERSÃO CORRIGIDA)
O quarto está impecavelmente arrumado, como se a internação fosse apenas um detalhe administrativo. Márcia — ainda interpretando Stella — está sentada na beira da cama, com roupas discretas e elegantes que Eriberto mandou trazer. Ela tenta manter a compostura, mas o olhar revela apreensão.
A porta se abre.
O médico entra com uma prancheta. Atrás dele, Eriberto, o governador, surge com sua postura rígida, impecável, carregando a autoridade de quem está acostumado a ser obedecido.
MÉDICO (sorriso profissional) Governador… Dona Stella… a alta está autorizada.
Márcia força um sorriso, medido, calculado.
MÁRCIA (como “Stella”) Então… eu posso ir?
MÉDICO Sim. Seus exames estão estáveis. Mas é fundamental manter o repouso. Nada de esforço, nada de estresse.
Eriberto dá um passo à frente, assumindo o controle da situação com naturalidade.
ERIBERTO Nós vamos imediatamente para o Palácio das Laranjeiras. (pausa, firme) Há assuntos que precisam da sua presença.
Márcia engole seco. A palavra “Palácio” pesa como chumbo.
MÁRCIA (baixa, tentando soar natural) E… a Marisa? Como ela está?
O médico consulta a prancheta, depois encara Márcia com cuidado.
MÉDICO A Marisa precisa ficar mais um tempo. (pausa) O processo de desintoxicação ainda não terminou. Ela está reagindo bem, mas não podemos liberar antes de estabilizar completamente.
Márcia assente, mas o olhar dela denuncia preocupação — e medo de que a farsa se complique.
Eriberto observa a reação dela com atenção, como se estivesse analisando cada detalhe.
ERIBERTO (sereno, mas firme) A Marisa está sendo cuidada. Agora, o foco é você. (pausa) O Palácio está esperando.
Márcia respira fundo, tentando se recompor. O médico entrega os papéis da alta.
MÉDICO Qualquer alteração, qualquer mal‑estar, volte imediatamente. Não hesite.
Márcia apenas acena.
Eriberto abre a porta, convidando‑a a sair. Ela caminha pelo corredor com passos calculados, como se estivesse entrando em um palco — e, de certa forma, está.
A câmera acompanha os dois se afastando.
CORTA PARA:
CENA 9 — PALÁCIO DAS LARANJEIRAS — CHEGADA DE “STELLA” — MANHÃ
O Palácio das Laranjeiras surge imponente, iluminado pela luz suave da manhã. Guardas, assessores e funcionários circulam com pressa, mas em silêncio — como se a casa inteira estivesse respirando política.
A porta principal se abre.
Márcia — interpretando Stella — entra acompanhada por dois seguranças. Ela tenta manter a postura elegante, mas seus olhos percorrem o ambiente com insegurança. O peso do lugar é quase físico.
No alto da escadaria interna, Consuelo, mãe de Eriberto, observa a chegada. Ela desce devagar, com a elegância de quem nasceu para ocupar aquele espaço. O olhar dela é afiado, avaliador, quase clínico.
CONSUEL0 (serena, mas fria) Stella… enfim em casa.
Márcia força um sorriso, mas não sustenta o olhar da sogra por muito tempo.
MÁRCIA (como “Stella”) Foi… foi uma noite difícil, Consuelo. Eu só quero descansar um pouco.
Consuelo se aproxima, sem pressa, como uma pantera estudando a presa.
CONSUEL0 Imagino. (pausa, olhando-a de cima a baixo) Mas não deixa de ser curioso… você chegar assim, tão… desligada.
Márcia engole seco.
MÁRCIA Eu ainda estou me recuperando. O médico pediu repouso absoluto.
Consuelo sorri — um sorriso que não chega aos olhos.
CONSUEL0 Claro. Repouso. (pausa longa) Justo no dia em que o baile foi cancelado. E no dia em que a imprensa inteira quer saber como isso afeta a candidatura do Eriberto.
Márcia endurece o rosto, tentando parecer natural.
MÁRCIA Eu… não estou pensando em baile, Consuelo. Nem em política. Só quero descansar.
Consuelo inclina a cabeça, estudando cada palavra, cada gesto.
CONSUEL0 Pois é exatamente isso que me intriga. (pausa, afiada) Você sempre foi tão… envolvida. Tão preocupada com a imagem da família. Hoje, parece… distante.
Márcia desvia o olhar, desconfortável.
MÁRCIA Eu… realmente não estou bem. Preciso me recolher.
Consuelo dá um passo para o lado, abrindo passagem — mas sem tirar os olhos dela.
CONSUEL0 Claro, querida. Vá. (pausa, venenosa) Mas saiba que, aqui dentro, cada silêncio fala mais alto do que qualquer palavra.
Márcia sobe a escada com passos rápidos, quase fugindo.
A câmera acompanha Consuelo, que permanece parada no saguão, observando a nora desaparecer no corredor.
O rosto dela endurece.
CONSUEL0 (para si mesma, baixa, desconfiada) Essa não é a Stella que eu conheço.
A música sobe, tensa.
CORTA PARA:
CENA 10 — APARTAMENTO DE ARTHUR — MANHÃ
SONOPLASTIA: “See You Next Wednesday” — Gavin Salkeld (clima tenso, pulsante, crescente, como um coração prestes a explodir)
O corredor do prédio está silencioso. Paula Lee caminha apressada, o salto ecoando como batidas de relógio. Ela chega à porta do apartamento de Arthur, respira fundo e abre com a chave reserva.
INTERIOR — APARTAMENTO DE ARTHUR
O ambiente está arrumado demais. Frio demais. Silencioso demais.
Paula entra devagar.
PAULA LEE (voz firme, tentando manter a calma) Arthur? (pausa) Arthur, sou eu.
Nada.
Ela avança pela sala. A música cresce, criando uma sensação de que algo está errado — muito errado.
A escrivaninha de Arthur está no canto, perto da janela. A cadeira está virada de costas, encarando a parede. Uma posição estranha, antinatural.
Paula franze o cenho.
PAULA LEE Arthur…?
Ela dá alguns passos lentos, cada um mais pesado que o anterior. A respiração dela começa a acelerar.
A música pulsa.
Ela para atrás da cadeira.
Estende a mão.
Toca no encosto.
GIRA A CADEIRA.
A câmera revela ARTHUR.
Sentado. Imóvel. Olhos abertos, vidrados.
Dois tiros no peito. A camisa encharcada de sangue. A pele já começando a perder a cor.
Arthur está morto.
Paula Lee leva a mão à boca, sufocando um grito. O choque é tão grande que ela dá um passo para trás, quase tropeçando.
A música explode no auge.
A câmera fecha no rosto de Arthur. Depois no rosto de Paula. Depois na armação da cena — fria, calculada, brutal.
Um assassinato. A queima‑roupa. Dentro do próprio apartamento.
Paula finalmente solta um som — um misto de horror e desespero.
PAULA LEE (um sussurro quebrado) Meu Deus, Arthur…
A câmera sobe lentamente, deixando a imagem congelada no corpo dele.
CORTE PARA:
FIM
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